domingo, maio 24, 2009

Amores voláteis

Entendi que os amores são como os pássaros -
Nasceram para voar livres nos espaços serenos.
Eles são felizes e eternos apenas se são livres.
Porque, quando postos entre as barras da gaiola,
Perdem seu canto, murcham e morrem como as flores
Cortadas dos hastis.

Muita vez eu fui menino malvado que ao ver o canto do pássaro no mato,
Quis tê-lo para si somente, correu a enjaulá-lo e a pô-lo na parede de casa
Até que seu canto cessasse, as asas se amofinassem
E a alegria emplumada perdesse a graça.

Aprendi que libertando os amores, como se libertam os pássaros engaiolados,
O jardim se enche de um canto novo todo dia, de cores fortes e lindas
Todas as manhãs, e os pássaros, outrora amofinados no canto da gaiola,
Voltam felizes e radiantes e do peitoril de nossa janela aberta
Trinam melodias cada vez mais sonoras para nos mostrarem que os amores,
Assim como os pássaros, só são felizes se estiverem livres para voar.



domingo, maio 10, 2009

Perdido

De tanto amar-te, meu coração virou um rio
E entre afluentes, corredeiras e precipícios
Ele perdeu-se no caminho - eu me perdi!
Pedi a Deus que me fizesse anjo, ave voando -
Que me desse um ninho!
Mas ai!, malgrado meu, Deus ainda não me ouviu.

Há dias em que as estrelas não brilham
Nem a lua nasce no horizonte escuro;
Em que eu não tenho norte, nem sul, nem rumo
E minha estrada é calçada de inúmeras perguntas sem respostas.

Queria me jogar no mar e esperar suas águas profundas
Me envolverem naquele silêncio de mar,
E quando estivesse descendo a me afogar, tu viesses do nada
E me levasses de volta à tona pela mão.
Queria descer no vazio silencioso do mar
Só para ver se tu virias correndo salvar minha ilusão.

Mas temo que ficaria só na imensidão de oceano que é a vida.
Porque os amores todos nascem mesmo é na solidão,
E lá eles se criam e se desfazem e se refazem
Nessas invenções que geramos dentro de nós na busca de sermos completos,
Nessa desvontade de abrirmos mão do que um dia quisemos ter
- É justamente quando o coração se perde e nos sentimos como rios
Que se afogam no meio do mar.

VISITE: http://www.marciowaltermachado.com.br/

domingo, maio 03, 2009

A ver navios

Meu amor se perdeu além do cais
Foi embora entre navios e balsas largas.
Fiquei a dar adeus c'os olhos cheios de lágrimas amargas
E nem sei dizer se ele voltará.

Hoje fiquei contando estrelas ao anoitecer.
Se alguma delas brilhou pra mim, não sei dizer
Mas penso que elas são todas lindas
E que estão no lugar onde eu queria estar
- De lá de cima, poderia ver o mar
E saber em que porto atracou quem partiu sem mim.

A vida a ninguém machuca,
Mas os homens, esses sim, são maus.
Não foi à vida que dei toda a minha ternura,
Não foi ela quem me retornou pedras e paus.
A vida a ninguém machuca.

Deixei pela manhã os passarinhos cantando na janela,
Eram cardeais e canários de pena amarela,
E saí correndo a ver o mar.
Mas do cais não avistei navios, só vi as ondas marolando devagar.

Saí correndo pela manhã procurando preencher o meu vazio.
É tão ruim ficar lembrando de quem partiu!
Queria mesmo era mandar todo mundo pra puta-que-pariu!
Mas eu sou tão besta, meu Deus, que fico aqui à beira-mar
Solitário, triste, perdido, com os olhos fixos a ver navios.