quarta-feira, dezembro 30, 2015

Europa em 60 dias - Roma, Itália - Percalços e resoluções

Piazza Navona
 Minha viagem para Roma desde o comecinho se mostrou meio torta. Tinha a intenção de passar um dia com meus amigos Fabrício e Gabi em solo italiano, mas depois que comprei a passagem, percebi que um bug (?) no site da Ryanair transferiu minha viagem para um dia após a data desejada, o que fez com que nós não nos encontrássemos por questão de poucos minutos. Mas, va bene, "somos tao jovens e temos todo o tempo do mundo". Ano que vem tá aí já, às portas.  
Café da manhã depois de uma noite terrível

Frustração primeira passada, vamos lá. Deixei o aeroporto de Lisboa rumo à Cidade Eterna, sonhando com todos aqueles filmes que minha mãe assistia e que fazia a gente ver junto com ela. Destes, o que melhor me recordo é Candelabro Italiano - uma história bonita do tipo que já não se faz mais hoje em dia, e a música de Pepino de Capri que insistia em tocar em minha cabeça: "Non credevo possibile, Se potessero dire queste parole: Al di lá del bene più prezioso, ci sei tu. Al di lá del sogno più ambizioso, ci sei tu. Al di lá delle cose più belle!". Mas era possível, era preciosa, era bela! era Roma se aproximando de mim entre turbulências e chacoalhos - fim de ano no hemisfério norte é brabo! -  o piloto pedindo desculpa pelo atraso, e o avião voando no céu por uma
hora e tantos extras por causa do mal tempo, e o piloto mudando a rota do avião, e o povo rezando com medo de morrer, e o avião pousando em outro aeroporto, e o povo aplaudindo o piloto de novo. E enfim nós passando pelo portão de desembarque às três horas da manhã e nenhum meio de transporte disponível a não ser táxi. Abri minha carteira, meus olhinhos apertados, coração apertado, meus eurinhos lá dentro se escondendo pra não sair. Mas não teve jeito, era dar uma de Angélica e pagar 40 contos pra ir de táxi ou ficar no aeroporto até o sol raiar, cansado, com sono, com fome, com sede, com vontade de ir no banheiro - era melhor deixar de ser muquirana e ir pro hostel.  (Aviso aos navegantes: quando você desembarca no aeroporto, uma galera de taxistas não oficiais se aproxima de você. É sempre mais seguro não pegá-los. Procure a fila de táxis oficiais).
Fórum Romano
Lá vou eu todo prosa aproveitando o motorista falastrão para pôr meu italiano em dia, falando de pizza,
Fontana di Trevi
lasanha, moto vespa, Ferrari... enquanto aquelas ruas todas iluminadas pro Natal iam ficando para trás e nós chegávamos ao meu destino, a minha via crucifixo, a minha caldeirinha! Ficaram curiosos com tanto drama? Vocês não sabem da missa a metade! Foi o seguinte: reservei o hostel pelo booking.com, como fiz com todos os outros, mas chegando lá, para minha enormensa (isso mesmo!) surpresa, o indiano que me atendeu depois de ficarmos batendo na porta de vidro até os dedos caírem congelados, depois do taxista ligar trocentas vezes pro número que constava na minha reserva, me disse que ali naquela rua bonita e iluminada do centro de Roma, a qual consta como endereço do hostel Carlitos na página do booking.com - inclusive com fotos da dita rua e tudo mais -
Basílica de Santa Maria Maggiore e Piazza Dell'Esquilino
a gente só fazia o check-in, que eu teria de andar uns 4 minutos para o meu destino, pois ali era o Hotel Des Artistes. Em outras palavras: Comprei gato por lebre! Agora imaginem vocês que eu, o cara que se perde com GPS na mão, fui lançado aos leões da madrugada gelada de Roma, com um mapa do local aonde eu devia ir e com a recomendação: você vai passar pela embaixada russa, eles têm armas, etc., mas você não tem nada que ver com eles. Apenas siga seu caminho. Eu com fome, cansado, com sede, com medo, com quase dor de barriga. Pois fui lá, mapinha na mão, as pernas
Motos Vespas em frente à Piazza Dell'Esquilino
bambas e a noite de aventuras apenas começando. Me perdi, rodei uma meia hora até finalmente achar a embaixada russa. Contornei a tal e entrei na rua do Carlitos - tudo escuro, nenhuma placa indicativa, nada de ver o número. O que eu fiz? Caminhei em direção ao militar de uns 3 metros de altura que portava uma metralhadora na mão dizendo em alto e bom italiano: "Senhor, me ajude, eu sou brasileiro, estou perdido, não acho meu hostel. Não atire, por favor, eu tenho mãe!", me borrando de medo do cara pensar que eu era um terrorista e que minha malinha era uma bomba. Ele riu, disse que eu tinha de voltar até o fim, da rua e entrar no último portão à esquerda - ou seja, ele já estava acostumado aos viajantes perdidos desse hostel desgraçado! :).
Basílica de São Pedro - Vaticano
Bom, encontrado o hostel, era só pôr o cartão para abrir a porta. e lá fui eu, uma, duas, três, mil tentativas. NADA! o cartão não abria a porta. Olhei prum lado, um escritório fechado, pra frente, entulho, pra rua, o frio. Liguei pro hotel, o indiano disse que não podia fazer nada por mim porque ele estava sozinho na recepção e não poderia sair pra ir abrir a porta pra mim, que eu ficasse tentando, que ele tinha ouvido um clique! E eu prestes a lhe dizer exatamente que clique foi o que ele tinha ouvido. No final das contas, quando eu já tinha resolvido dormir ali mesmo nos degraus, o cartão funcionou. Eu entrei no apartamento e para acessar o quarto, imaginem, o mesmo cartão que não funcionava. Lá fui eu de novo. Quando enfim consegui, sentei na cama e chorei, chorei como um bebê agarrado às minhas malas, chamando por Deus e todos os santos, o coração ardendo, o rosto ardendo, eu tremendo de frio e fome - tá bom, não chorei nem tremi, só queria fazer um dramazinho -, mas me agarrei às minhas coisas, à minha fè, fechei o olho e rezei pro sol nascer.

Praça de São Pedro - Vaticano
 E quando ele veio foi que eu vi ainda mais claramente onde tinha me metido! Num quarto-chiqueiro com um
casal do leste europeu me olhando como se eu fosse um alien, um chinês tarado que não parava de olhar pros peitos da russa e uma pobre chinezinha que estava na mesma situação que eu, com uma cara mais assustada que a minha. Dei bom-dia a todo mundo, acessei a internet, procurei hostels na vizinhança, peguei minhas malas e me piquei correndo pro Yellow Hostel! Esse sim, isso que é hostel italiano! Lugar bacana, funcionários bacanas, todo mundo feliz, todo mundo jovem, tudo uma festa, quarto limpo, arejado, bem organizado. Meu Deus, obrigado pelo Google!

Eu e os Rodrigos no Vaticano
Deixei minhas coisas no hostel e me mandei a desbravar a cidade sob a luz do sol brilhante e sob o céu azul de Roma. Chequei meu roteiro e fui fazer minhas caminhadas até o Coliseu, Forum Romano (passei o dia todo entre os dois, pois é muita coisa pra ver lá dentro). Ao cair da noite, revigorado pelas descobertas, cheio daquela sensação de "Vine, Vide, Vinci" que tinha me possuído desde que entrei no Yellow, voltei pro hostel para conhecer duas das maiores figuras que encontrei
até agora em minhas viagens: dois chilenos muito engraçados e muito gente boa chamados Rodrigo, sim, os dois são Rodrigo, e de lá partimos juntos para conhecer La Città Eterna de noite. Sempre aproveitem a oportunidade de sair a visitar as cidades e os pontos turísticos à noite, especialmente em épocas de festa, como no Natal, você se surpreenderá com a beleza dos monumentos.

Ficamos pela rua até de madrugada e nesse meio-tempo combinamos a ida ao Vaticano. Um dos Rodrigos
Dentro da Basílica de São Pedro
Membro da Guarda Suíça
tinha sido seminarista e conhece muito da história da igreja e de Roma. Íamos passeando e ele nos contando as histórias e explicando os rituais, os motivos disso e daquilo. Foram horas de grande aprendizagem, de experiências inusitadas como a de passar o Natal num frio lascado, assistindo à Missa do Galo, sentado de frente à Basílica de São Pedro, em pleno Vaticano, celebrada pelo Papa Francisco em pessoa, e nós ali, ao vivo e a cores! Na ocasião também, conhecemos um brasileiro chamado Luiz que está fazendo mestrado em Budapeste e que veio a Roma pro Natal. Ele, assim como eu e os Rodrigos, com um olho na missa e outro ao redor, pensando que de repente (apesar da incrível segurança feita pela polícia e exército) uma bomba pudesse explodir. Mas graças a Deus, como disse Luiz, "eles não seriam tao óbvios".

O Papa disse seu "Ite, Missa Est" e nós fomos pelas ruas da cidade sem achar metrô, nem táxi, nem ônibus - Niente!  nada funcionando. Mas, a noite é uma criança, gelada, mas uma criança. Fomos caminhando, conversando, cantando na chuva gelada que caía até que chegamos num cruzamento e a Luz apareceu. Uma mexicana que tinha ido ver a Missa do Galo e que tinha se perdido sem transporte nenhum pra voltar pro hostel com sua amiga. Como já conhecíamos o trajeto pela cidade, guiamos a Luz pelo caminho iluminado de Roma e a deixamos sã e salva. E tudo, tudo mesmo ficou uma beleza na noite não mais tão gelada da Itália.

Mulher romena jovem fingindo ser
velha para esmolar - Vaticano
Forum Romano
Mais uma vez, as frases do meu tio Jaime vieram fazer eco em minha cabeça: "No final tudo dá certo, se não deu certo, é porque não chegou no final"

Só um alerta: Não se hospedem no hostel Carlitos em Ro
ma, as fotos na internet e no booking.com são um embuste! Depois eu postarei o vídeo que fiz do trajeto até ele.



Gostaram? Então divulguem! Valeu, galera! Feliz Ano Novo na paz e no amor de Deus!


sábado, dezembro 26, 2015

Europa em 60 dias - Lisboa, Portugal - Parte II

Planejar o roteiro em Lisboa é muito fácil, uma vez que coisas para ver e fazer são o que não faltam. Primeiro, porque Lisboa é uma cidade muito antiga, cheia de monumentos e ruelas estreitas e longas a serem explorados; segundo, porque ela é vibrante de dia e de noite com seus bares, pastelarias, shows e apresentações em restaurantes e ao ar livre. Parece que nunca há falta do que fazer e a cidade fervilha de vida.

Mapa de um dos meus roteiros no Google maps. Dessa forma
se pode calcular as distâncias entre os pontos turísticos.
 Para começar o meu roteiro, fui ao Youtube buscar alguns vídeos turísticos dentre os quais, me lembrei das famosas “Crônicas do JH”. Toda a alienação da Rede Globo à parte, os correspondentes do Jornal Hoje fazem matérias maravilhosas sobre os lugares onde eles estão (no final deste post, porei os links para os vídeos e blogs que mais me ajudaram a preparar meus roteiros na cidade de Fernando Pessoa). Outra ajuda que tive na preparação do meu roteiro veio do Google maps. Não apenas pela praticidade de andar em 3D pelo percurso desejado e previamente saber onde iremos pisar (e o que evitar), mas também por ajudar a calcular a distância entre um ponto no mapa e outro e, desta forma, pouparmos tempo e dinheiro com locomoção. Em Lisboa, como disse anteriormente, os pontos turísticos mais importantes estão todos próximos do meu hostel e de lá, pude fazer quase todos os percursos a pé.

Aliás, como vocês já sabem, eu adoro andar pelas ruas das cidades onde estou, pois assim tenho a sensação de pertencer ao local e a oportunidade de ver coisas que não veria de dentro de um veículo, tais quais placas indicativas de momentos ou personalidades históricos que ocorreram ou viveram por aquelas ruas. Outro barato das caminhadas é poder entrar em contato com as pessoas locais ou turistas e puxar um papo, sentar num café, ouvir/ver um artista de rua (eles estão por todos os lugares na Europa). E em Lisboa, especialmente, caminhar pelas calçadas de pedrinhas brancas ou ruas de paralelepípedos, subir as ladeiras centenárias e contemplar as milhares de variedades de azulejos das fachadas das casas e casarões antigos é uma experiência imperdível mesmo para quem vem de cidades de arquitetura Barroca/Rococó no Brasil.
Um bondinho fazendo as vezes de elevador entre
a parte baixa e alta de Lisboa
Eu, que toda semana faço minhas caminhadas pelo centro histórico de Salvador, não consegui perder a experiência. Mas, se você é do tipo personagens humanos de Wall-y, não se preocupe, o sistema de transporte integrado é muito bom e com um cartão para o dia (ou dias) você pode usar quase todos os meios de transporte, e o valor será debitado apenas da primeira vez que você o validar a cada dia. Assim, pode-se ir de metro (metrô), comboio (trem), autocarro (ônibus), elétricos (bondes), e... tuc-tuc! Sim, Lisboa está cheia deles por todos os cantos turísticos! Motoristas muito simpáticos e divertidos te levam a passear pelos cantos importantes da cidade enquanto te divertem com histórias - mas atenção, não se pode dar umas voltas de tuc-tuc com o mesmo cartão do metrô, você tem de pagar em dinheiro.

Eu, particularmente, evitei pegar transporte. Na verdade, só peguei um elétrico no dia que fomos ao castelo São Jorge (outro roteiro IMPERDÍVEL), porque meu amigo Johann - a quem não via desde o Réveillon 2013/2014 em  Paris, (http://marciowaltermachado.blogspot.ro/2015/09/reveillon-em-paris-uma-cronica-parte-i.html) tinha vindo me visitar e ia embora naquele dia, daí precisávamos economizar tempo para explorar o centro lisboeta – o trenzinho faz uma volta de 360 graus pelo Centro, se você estiver com pressa, vale a pena. Mas eu continuo recomendando a andada...

Ponte de Lisboa vista do Cristo Rei
Durante os dias que fiquei em Lisboa, pude conhecer gente muito simpática e cortesa e ver lugares de encher a vista. A propósito, depois de duas meninas canadenses que estavam em meu hostel me explicarem o que significa “uma cidade romântica”, eu pus Lisboa entre as 10 mais que já conheci. Uma andada pelas ruas e becos estreitos da Alfama, por exemplo, ao cair da tarde, ouvindo o som do fado português cantado do mais profundo da alma, os sobrados coloridos com roupas penduradas à janela recebendo o frio da noite, amigos, casais, moradores sentados às portas de casa ou dos cafés, rindo e se enamorando aos sons das notas melancólicas da música sentida no fundo do coração, e as noites claras de lua ou de estrelas, nos dão a sensação daqueles filmes românticos que fazem nossos olhos marearem. É como ver Collin Firth descendo as escadarias, com a multidão a segui-lo, na noite de Natal para pedir a mão de Lúcia Muniz em casamento enquanto a multidão,
Arco da Rua Augusta
encantada, o ovaciona em “Love Actually”. Ou então, sentar-se no cais do Sodré nas primeiras horas do dia ou ao pôr do sol e contemplar a luz da cidade com um café quentinho às margens do Tejo, sobre o qual também podemos passear numa barca de uma à outra margem do Rio (a caminho do Cristo Rei) sentindo o marolar das águas e o vento fresco acarinhar nossas faces – indico a experiência (mas quanto ao cais, embora seja maravilhoso, precisarei quebrar o clima de romantismo, pois é válido um alerta: uns vendedores com vários óculos nas mãos se aproximam de você e dizem: “óculos”, quando você diz que não os quer, eles “dão o doce”: “haxixe, coca, marijuana?”. Se você não se interessa pelo material, feche a cara e mande eles vazarem; se se interessa, faça o mesmo, pois, segundo vários portugueses com quem conversei, o que eles vendem é qualquer coisa, menos o anunciado. Razão pela qual eles só vendem aos turistas e porque a polícia não os prende – pois, se não vendem drogas, não podem ser presos por porte de drogas. Não existe lei em Portugal que prenda gente por vender chá e talco. Estão querendo criar uma lei para enquadrá-los, mas ainda estão no projeto. Então, esqueça os vendedores de ervas e vá relaxar pelo cais e admirar a vista, sem se esquecer de ficar atento aos seus pertences, não é o Brasil, mas a galera bate sua carteira se você vacilar.

Pastéis de Belém com um McCafé pra esquentar
Ali próximo ao Cais você encontra outro grande símbolo de Lisboa, uma maravilha arquitetônica e centenária que é o Arco da Rua Augusta.  De cima do Arco se tem uma vista magnífica (aliás, de qualquer lugar da cidade se tem uma vista magnífica, porque Lisboa é simplesmente magnífica!). Depois de contemplar a lindeza do lugar, fotografar muito, se inspirar muito, aproveite pra fazer uma boquinha. Foi por lá também, próximo ao Arco, que comi um dos melhores pratos com bacalhau da minha vida! Comer o Bacalhau ao Brás é condição sine qua non para quem está em Lisboa e nessa região, cheia de restaurantes e quiosques, você será muito bem servido – outras coisas que você não deve deixar de experimentar são as famosas francesinhas, os pastéis de nata e os doces de ovos da Confeitaria Nacional. Me deliciei com eles. Quando for à Torre de Belém,
Torre de Belém
reserve tempo para os famosos pastéis de Belém, na “fábrica” de pastéis – uma lojinha muito bem arrumada e aconchegante, porém lotada de turistas e locais, então, entre na fila, espere um pouco e coma, coma muito, pois é delicioso! Me lembro de Johann dizendo: “todo lugar que vou (Brasil, Macau...) sempre procuro pelos pastéis, mas tenho que confessar que estes são imbatíveis”, e também ajudam a nos dar a energia necessária para subir e descer as ladeiras.
 
Tuc-tuc no centro de Lisboa
E por falar em subir, o Elevador de Santa Justa, como ouvi um turista brasileiro falando enquanto esperávamos na fila, “é como se fosse o Elevador Lacerda deles”. Não tiro sua razão, pois ambos ligam as duas partes da cidade e de ambos a vista é extasiante. Prefira ir ao Elevador (português) de manhã por volta das dez ou à tarde antes do pôr-do-sol por causa do efeito da luz sobre o Tejo, suas fotos vão ficar incríveis! Depois disso, você tem duas opções: ou vai dar um passeio contemplativo pela Misericórdia e Alfama, ou vai para o Chiado e o Bairro Alto. Dependendo das suas inclinações, todas as escolhas levam à satisfação em cem por cento.

Talvez seja mesmo esta a expressão certa para terminar o post: Lisboa, para quem gosta de turistar, é a satisfação em 100%. Pois, por cá, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.














Aqui vão os links: 
http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/04/jornal-hoje-desvenda-os-segredos-dos-doces-de-ovos-portugueses.html

http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/07/rede-de-bondinhos-em-lisboa-atrai-moradores-e-turistas.html

http://www.projeto101paises.com.br/tag/lisboa

https://www.youtube.com/watch?v=Mw2t5q-4SLI

E, obviamente, você pode fazer como eu fiz: incluir no roteiro coisas e lugares inusitados que eu fui descobrindo ao passear pela cidade. 

Gostou? Então divulgue ;) 

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Europa em 60 dias - Lisboa, Portugal - Parte I

Vista do Castelo de São Jorge, Lisboa - (foto: Johann Morriseau)
Desta vez eu comecei a planejar a viagem com dois meses de antecedência. Procurando no decolar.com por voos baratos para a Europa, pois já havia cansado de buscar por voos nacionais e encontrado valores absurdos como SSa-SLZ R$1245,00 a ida ou R900 SSa-Goiânia também só a ida. Queria viajar pelos dois meses de férias que tenho a partir do final do ano e relaxar a cabeça dos concursos para os quais tenho estudado, e, viajar no Brasil, infelizmente, é impossível para mim devido aos preços absurdos de passagens, hospedagens e alimentação – por incrível que pareça, os
 ricos viajam no Brasil e os pobres pela Europa! Bom, deixando as queixas de lado, na mesma ocasião que comecei a comprar os voos e fazer os roteiros, iniciei as reservas dos hostels (pelo booking.com http://www.projeto101paises.com.br/) e dos quartos pela airbnb – a antecedência, especialmente nos períodos de férias, faz os preços melhores e garante um lugar ao sol pra vc.


Passagens nas mãos, reservas feitas, era jogar os panos dentro da mala e aguardar o dia. Mas eu sou eu, né?! Como de costume, deixei pra arrumar a mala faltando apenas 3 horas para o embarque enquanto o pessoal no Whatsapp me chamava de maluco e minha mãe me dizia que eu “ia acabar largando o passaporte em casa”. Mas não é bem assim. Embora eu seja daqueles nossos que deixam tudo para a última hora, durante a(s) semana(s) que antecede(m) a viagem, eu vou fazendo uma lista, bem organizada, com todos os itens que preciso levar. Aí, na hora de pôr a mala em ordem, é só ler o que escrevi e tudo fica prontinho em menos de 20 minutos.

Uma última conferida na lista, tudo estando ticadinho, era meter o cadeado e partir rumo ao aeroporto Internacional de Salvador, rever aquela avenida única coberta de bambus dos dois lados lembrando os dias da IIa Guerra Mundial. Mas ninguém lembra de guerra quando está com a família no carro de olhos mareados e conversas agradáveis. Dalí pra frente era só beijar e abraçar todo mundo e cair fora em direção ao balcão da TAP – Lisboa, cá estou, pois pois!

As 8 horas de viagem de Salvador a Lisboa foram longas. Não consigo dormir quando estou em viagem, e ver filmes na telinha de bordo não faz a minha cabeça. No entanto, neste voo, eles estavam
Jantar TAP
passando vários capítulos da série “Divã”, com Lilia Cabral, uma de minha atrizes favoritas. Fui distraindo até dormir – mais ou menos dormir, porque a o voo foi muito turbulento, com direito a relâmpagos e muito, muito waka-waka. Os comissários de bordo tiveram de suspender o serviço de refeição por duas vezes. Agora pensem em vocês no meio do Atlântico, chacoalhando feito a Shakira e com a barriga roncando como o rosnar de um cachorro feroz – pânico no céu, mas no fim, sempre no fim, tudo dá certo e poucas horas depois, estávamos todos sãos e salvos em solo português com o piloto recebendo aplausos dos passageiros em êxtase de alívio por não terem ficado boiando sobre as águas negras do Atlântico.

Na saída do desembarque internacional, terminal 1 – que é onde os voos da TAP chegam -, diante do portão, vá para a direita. Ali haverá um balcão de informação, em frente dele uma casa de câmbio (sugiro que não troque dinheiro em casas de câmbio nos aeroportos), do lado desta um café bem agradável. Se não quiser informação, grana ou café com pastéis (que são bolinhos como nossas empadas ou quiches – mais ou menos), saia, siga sempre à direita e, em frente às escadas rolantes, verá três portas automáticas que te levarão ao metrô.

Mapa das Linhas do Metro de Lisboa
O acesso ao centro de Lisboa pelo metrô é muito bom, você tem linhas e conexões para todos os lugares, só precisa ficar de olho nos horários. São quatro as linhas: azul, vermelha, amarela e verde. Há também autocarros (ônibus), comboios (trens) e balsas que complementam o serviço e os quais você pode pagar com o mesmo tíquete que você comprou no metrô – uma tarifa é válida por 24 h. a partir do momento que você usou o cartão pela primeira vez – trocando em miúdos, com a tarifa de um dia, você pode andar em quase todos os meios de transporte por 24 horas, basta apenas tocar o cartão nos validadores. Eu comprei um cartão para sete dias por 42,50 euros – lembrando que você pode fazer quantas viagens quiser utilizando os serviços de transporte público integrados por 24 horas a partir da primeira validação (o cartão é recarregável em caixas eletrônicos espalhados pelos terminais do metrô (aqui pronunciado “metro”) e outros terminais.

Johann conversando com o canário
Isso feito, hora de me perder na estação. Não, não é difícil, é minha inteligência espacial que é lenta mesmo. Sempre me perco mesmo com o mapa na mão. Mas vai lá, minha avó sempre me disse que quem tem boca vai a Roma, ir ao centro de Lisboa, estando em Lisboa deve ser bem mais fácil. O problema é o receio de receber as respostas das pessoas às suas perguntas com sotaque estrangeiro nessa época tumultuada de imigrações e ocupações ilegais. No entanto, para minha surpresa, as pessoas foram SEMPRE extremamente gentis comigo, algumas delas até se importaram em me levar diretamente aos lugares onde eu queria ir, chegando a caminhar por 10-15 minutos! Bravo, Portugal!!!

Praça Camões - Lisboa
Digressões à parte, uma das pessoas que me ajudaram a encontrar meu caminho, inclusive ligando para meu hostel, foi uma soteropolitana chamada Ana, cujo filho chegou da Bahia no mesmo dia que eu. Ela está morando aqui há 8 meses já e seu menino – um rapazinho de 15, 16 anos - veio ficar com ela. Foi lindo ver a felicidade explodindo entre os dois, e mais lindo ainda ouvir as palavras de carinho em baianês “oh, neguinho de mainha, foi tudo bem?”. Mais dois brasileiros fugindo da violência que nos assola – lembro que ela me disse: “o que me faz gostar de Lisboa, entre outras coisas, é poder andar com meu celular na rua a qualquer hora do dia ou da noite sem
precisar de escondê-lo na minha roupa”. Triste verdade! Mas fiquem de olho! Há roubos em Portugal. Especialmente praticados por imigrantes do leste europeu. Eles te cercam e levam suas coisas sem você perceber, daí haver vários anúncios espalhados nas linhas de trem, metrô e elétricos te alertando sobre os “carteiristas” – a diferença é que ninguém vai te esfaquear ou te dar um tiro pra levar as suas coisas - (obs. aos seguidores de Pasquale Neto antes que me corrijam o uso de pronomes e possessivos no parágrafo em questão: eu sei a diferença entre tu/você, teu/seu J ).

Lisboa - me lembrando as ruas
de São Salvador da Bahia
A minha estação final é a Baixa-Chiado, na qual eu cheguei com um alívio maravilhado, pois, ao despontar no Largo do Chiado, me senti em casa. Era como se andasse em Santo Antônio Além do Carmo, no Pelourinho, na Ribeira... aquelas casas lindas, sobrados de 200, 300, anos, com fachadas em azulejo, as calçadas cobertas de pedras portuguesas como várias ruas em Salvador TINHAM (até um idiota de um engenheiro resolver tirá-las na restauração de alguns pontos turísticos importantes e trocá-la por cimento com pedacitos de mármore – sorte que a idiotice dele ainda não afetou o centro histórico e algumas ruas antigas) e, sobretudo, aquelas ladeiras enormes que nos levam a todos os lugares, eram simplesmente como Salvador. Aliás, o projeto de SSa (São Salvador, por isso dois “S”) era criar uma Lisboa fora de Lisboa, igualzinha, por isso tanta semelhança entre essas duas cidades. Ao encontrarem tantas colinas, tantos altos e baixos, eles devem ter tido a mesma sensação que eu, a diferença é que eles tinham quem carregasse suas malas, eu, por minha vez, tive de ir arrastando minha mala ladeira acima, nas calçadas de pedras portuguesas que eu tanto amo, fazendo um barulho enorme das rodinhas contra a brancura das pedras.

Miradouro de São Pedro de Alcântara
Meu hostel fica de frente ao Miradouro de São Pedro de Alcântara. Lugar maravilhoso, com uma vista que te deixa sem ar, e convenientemente a pouca caminhada de quase todos os pontos turísticos imperdíveis, estações de metrô e os bondinhos que levam as pessoas pelas ladeiras enormes. Mas mesmo que não fosse perto, teria valido a hospedagem só pela arquitetura do hostel e pela caminhada pelas ruazinhas da vizinhança.

Pombos tomando banho no
Largo de São pedro de Alcântara
Agora era só registrar e partir em busca das aventuras que a terrinha lusitana tem a oferecer – sobre isso falaremos em outros posts, pois este aqui já está grande o suficiente.

Gostou? Então divulgue!


Beijo e até a próxima. 

Paris é uma festa - Parte III - Monumentos e Lugares imperdíveis

Em breve posto aqui o texto.

Aguardem


sexta-feira, dezembro 18, 2015

Paris é uma festa - Parte II - um pouco sobre a comida

Mesa posra no Pallais du Versailles
A gastronomia francesa é uma das mais celebradas do mundo. Seus pratos variam desde os exóticos aos mais ordinários, aos fast-foods americanos. Daí ela ser boa para todos os gostos e todos os bolsos.

Mesmo quando viajando com a grana curta, como eu, sempre tem espaço pra comer bem e, estando com amigos, dividir a conta de queijos, vinhos, baguettes, croissants, etc. sempre é uma boa ideia.


pão, por exemplo, é uma parte indispensável da gastronomia francesa. Qualquer refeição que se preze na França tem de ter pão de entrada. Foi isso que descobri na casa de Johann nos dias que estive lá. Por isso, logo que saímos dos arredores da Torre Eiffel em direção à casa do meu amigo, Johann me disse que era necessário passarmos antes numa boulangerie (padaria) para comprarmos pão para o almoço. E lá fomos nós, dirigindo pela bela cidade até chegarmos a um lugarzinho pequeno, com gente supersimpática e sorridente que mal ouviu meu sotaque, me perguntou: "Tu viens d'oú?", quando eu disse que vinha do Brasil, os sorrisos se alargaram, os olhinhos brilharam e a atendente, que também era caixa, me disse: "Riô!", a que eu logo bradei na mesma empolgação: "Salvador de Bahiá!", ela, percebendo uma disputa territorial, jogou mais lenha na fogueira: "Corcovadô" ao que eu respondi sorridente: "Elevador Lacerdá", e assim ficamos falando de monumentos e atrações das duas cidades por mais uns dois minutos, até que seu estoque de palavras cariocas acabaram e ela me disse: então, quantas baguettes? Eu, doido pra continuar falando da Bahia, olhei pra ela e respondi meio que mordendo a boca: duas, por favor", ela sorriu, pegou o dinheiro, registrou e, com a mesma maozinha, foi à prateleira e pegou os meus pães, sem cerimônia nenhuma. segurou meu ranguinho com as mãos de uma manhã toda de dinheiro, coçadinha de cabeça, apertos de mãos e sabe-lá-Deus-o-que-mais. Ela me entregou o pão, com um sorriso tão meigo e eu, sorrindo amarelo, agradeci, olhei pra o meu amigo como que perguntando: "vamos assar esse pão, bem assado, né?". Mas ele, não entendendo minha cara, me disse enquanto ajeitava as baguettes em meu sovaco: "debaixo do braço, Marciô, põe debaixo do braço". E lá fomos nós almoçar um delicioso guisado francês com o paozinho cheiroso de entrada. 
 
Sempre antes de comermos, arrumava-se a mesa com pratos, garfos, geleia e manteiga, e conversávamos enquanto nos deliciávamos no pão francês. Os restaurantes também são a mesma coisa. Neles, quando o pão acaba, os garçons servem mais, e mais, e mais até você ir embora. Você pode ir almoçar num restaurante e garantir seu café da manhã por uns três ou quatro dias (brincadeira!). 

No dia seguinte, eu encontrei meus amigos Fabrício e Gabi para uma aventura à la Woody Allen em Paris. Gabi tinha feito um roteiro de passeio baseado, na maior parte, no filme "Meia-noite em Paris", sem esquecer de incluir algumas peculiaridades como a visita à rua mais charmosa do mundo (porque a mais bonita fica em Porto Alegre!), às catacumbas (mas isso fica pra um outro post) e a quatro pontos que muito nos interessam aqui: L'as du Fallafel (o melhor Fallafel de Paris"), L'artisan Boulanger (a melhor baguette do ano), Ladurée (os melhores macarrons da cidade) - chequem aqui: http://www.projeto101paises.com.br/2014/07/paris-5-lugares-para-sair-um-pouco-do.html -, e McDonald's (porque era na Champs Elysées e nós estávamos com pressa e vontade de tomar um café quente com batatas fritas, e eu estava afim de fazer uma graça com vocês, leitores). 

Pois bem, fomos os três ao Fallafel, que fica num bairro judeu em Paris, e lá, por causa da fama do local, tivemos de esperar algum tempo na fila, no frio e na chuva para comer. Foi uma espera longa, uma espera roncadoura, mas valeu a pena. Os garçons sempre muito cordiais, servindo pão pra gente o tempo todo. Um dos garçons, David, ao saber que éramos brasileiros, ficou todo prosa, puxando assunto sempre que conseguia chegar à nossa mesa. Foi ele, por sinal, que me informou que a base da refeição francesa era o pão, depois que eu, acostumado com os restaurantes brasileiros, perguntei se a gente ia ter de pagar por aquela padaria toda. Ele me disse que ficasse despreocupado porque na França, o pão e água nos restaurantes são de "graça" (as aspas são minhas). Bom, ele trouxe o menu e aí, o papai aqui, seguido por Fabrício, foi inventar de pedir o Fallafel no prato - Gabi pediu um cone tipo Mcwrap por metade do preço. Quando os pratos chegaram, a gente, morrendo de fome, caiu matando, mas não conseguiu comer nem a metade! O prato era tão bem servido que não aguentamos terminar. Bem fez Gabi: comprou uma porção menor, pagou metade do preço e não deixou nem um tiquinho pra contar história. Avisados, brazucas do olho maior que a barriga, só comprem o prato de Fallafel se vocês aguentarem comer até o fim!

Saímos felizes e pesados do restaurante para caminhar pelas ruas de Paris – sim, mais uma caminhada! Paris é linda, um lugar onde se caminha sem perceber o tempo passar e se queima calorias com gosto de vanguarda. Caminhamos tanto, tiramos tantas fotos, vimos tantos monumentos e tudo o que a Cidade Luz tem a nos oferecer que quando demos por nós, já era ora de comer novamente. Caí na ponga dos Globe Trotters e partimos para uma ruazinha normal como qualquer outra, em busca de uma padaria cuja baguette tinha sido eleita a melhor do ano. A incumbência de comprar o tão desejado pão coube a mim. E eu, de olho na vendedora, fiquei prestando atenção se ela
pegaria o dinheiro e depois a baguette! Mais non, Monsieur! Oh là là! Quem trazia o rango era uma outra pessoa. E eu, sorri aliviado!

Saí com meu pãozinho debaixo do braço para encontrar meus amigos que já me esperavam com o queijo que havíamos comprado no caminho. E lá fomos nós, eu com minha mão de dinheiro, de poste, do cachorrinho bichon frisée que eu tinha acarinhado mais cedo, pegando o queijo, abrindo a baguette e fazendo nosso sanduiche! Viva Paris! Bravo, Marciô! Sem nojentices! E o incrível é que ninguém pegou verme nem ficou doente. Paris é mesmo uma festa, uma mágica.

No dia seguinte, fizemos tudo o que um turista faz quando tem um roteiro bem organizado nas mãos. Almoçamos carneiro assado na vertical num restaurante turco – uma delícia! Mas não me lembro do nome. E ao cair da noite, encontramos o Johann para fazermos o trajeto de Owen Wilson no filme de Allen, vimos a universidade de Direito, andamos até a igreja onde o carro psicodélico-sessão-espírita pega ele, e fomos comer debaixo daquela névoa fria que tocava nossa cara como um beijo de ice-kiss. Nosso destino era o Ladurée, um restaurante especializado em macarrons.

Diante da entrada, me lembrei de uma cena do filme “Splash – uma sereia em minha vida”. Tom Hanks dá um presente para Deryl Hanna, todo embrulhadinho, e ela diz que é lindo, com a maior cara de felicidade, até que ele lhe pede que abra o presente e a sereia pergunta: “tem mais?!”. É bem essa a sensação. Você entra no Ladurée e se sente transportado a algum lugar do passado, do chic, do delicioso gosto de macorrons de todos os sabores tocando seus beiços vorazes, enchendo sua boca faminta, descendo saborosíssimo por sua goela enquanto um café delicioso, quase brasileiro, esquenta a noite. Mas, além disso tudo e da companhia dos meus amigos, estar naquele lugar pomposo à noite, ouvindo as risadas vindas das conversas alegres e animadas lá dentro, olhando aquela avenida histórica lá fora reluzindo com as luzes do Natal, me fazia sentir especial, contente e de barriga cheia.

Quanto ao McDonalds, ele estava lá, em todo o canto que nós íamos, todos os dias, oferecendo suas gordices às pessoas que por lá passavam. Mas eram umas gordices com valor menor que outros lugares e com café e leite num copão de quentura bem-vinda contra o frio. Eu, particularmente, me esbanjava no café barato deles. Sentindo aquele calorzinho gostoso nas minhas mãos por debaixo das luvas, mas, geralmente, apesar de às vezes comer uma porção de batatas fritas, eu preferia ir com meu cafezinho comprar uma salsicha alemã ou polonesa que estavam sendo vendidas ali bem ao longo da Champs. Ou então, provar uns croissants em alguma boulangerie, sentado no passeio, conversando sobre nossas aventuras, ou comer um crepe gigante cheio de Nutela, me fazendo lembrar o beiju de chocolate amargo com banana que eu faço quando estou em casa.





                                                 


segunda-feira, setembro 14, 2015

Paris é uma festa - Parte I - Réveillon

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Quando eu cheguei a Paris não sabia exatamente o que esperar. Tinha apenas as referências dos livros que havia lido – especialmente os de Balzac –, dos filmes que tinha visto, e, obviamente, dos relatos de parentes e amigos que voltavam de lá encantados e apaixonados, com os olhinhos brilhando e cheios de graça como se tivessem tido uma experiência religiosa. Para mim, no entanto, Paris era uma colcha de retalhos que se amontoavam entre Louis XIV, Os Três Mosqueteiros, Revoluções, cabeças decapitadas, Marias Antonietas, manifestos comunistas, Corcundas de Notre Dame, Rimbauds, Renoirs, escargots, baguetes com frois-gras, e Charles Aznavour comendo macarrons com Edith Piaf em algum café. Um lugar onde as pessoas andavam “bras dessus, bras dessous en chantant des chansons” com as caras felizes, vendo pintores de boinas e bigodinhos finos levando tapas das mulheres com cabelos no sovaco. Pondo em palavras agora, vejo que minha visão era meio conturbada e quimérica, algo entre o esotérico e o psicodélico. Mas Paris não é nada disso, ou talvez seja tudo isso e muito mais. Talvez seja uma festa aonde todos nós somos convidados a entrar e de onde saímos com o coração pesaroso por deixá-la para trás.

E se Paris é uma festa, para mim foi uma festa de Réveillon. Cheguei lá para as celebrações de final

de ano e para reencontrar meus amigos Globe Trotters Fabrício e Gabi (http://www.projeto101paises.com.br/), que não via há mais de um ano, e visitar um amigo francês que tinha conhecido no avião num voo da Bahia a Amsterdam alguns meses antes. Nessa união do útil ao agradável fui surpreendido de formas diferentes e cheio de sentimentos ambivalentes em relação à Cidade Luz.

Ao descer no aeroporto de Beauvais fui recebido com um sorriso esfuziante do agente da imigração que segurava meu passaporte e dizia “Brésil, hein!!! Neymar!!!”, e eu, com cara de quem tinha passado a madrugada acordado no aeroporto e não dormido no voo, respondia com um sorriso amarelo “oui, oui! Neymar, Pelé, Ronaldô, Carnaval” e pensava “bate esse carimbo logo, seu moço!”. Meu amigo Johann já deveria estar me esperando no saguão enquanto o agente conversava comigo sobre sua ida a Bahia e como a “Chapadá” era bonita. Mas apesar do cansaço, é sempre bom ser tão bem recebido por pessoas que têm uma visão tão alto astral da sua terra, especialmente em tempos nebulosos.

Saído da imigração, minha mochila nas costas, o ar frio da França nos pulmões foi me revigorando lentamente. Encontrei meu amigo e fomos a caminho de Paris. Como estava cedo, fomos dar uma volta pela cidade. Não sei bem o que eu senti naquele momento, mas me recordo de pensar “meu Deus! Eu estou em Paris!”. Não sei por que pensei assim, nunca fui do tipo deslumbrado, mas a emoção quando chega às vezes nos mostra faces nossas ainda desconhecidas. E o Johann começou a me contar as coisas interessantes sobre os franceses. Me lembro que a primeira coisa que me disse foi: Márcio, escute bem, nós franceses acreditamos que somos os melhores, não somos, mas acreditamos que somos. Nossa comida é a melhor, nosso país é o melhor, nossa língua é a melhor. Por isso, quando você for sair, se lembre de sempre falar em francês com as pessoas, caso precise de alguma coisa”. E eu pensei: Ai, mô Pai, com esse meu francês enferrujado... to lascado!”. Mas aí ele mudou de assunto e começou a contar as histórias das ruas por onde passávamos, entre elas, uma que me deixou meio sem jeito. Ao passarmos por um parque nas proximidades da Torre Eiffel ele disse, aqui é perigoso você andar à noite, há muitos michés chamados “Brésiliens”, em busca de programa e muitas vezes ocorrem episódios de violência”. Isso era dizer que os putos da França eram brasileiros e que eram violentos. Fazer o quê, né? Cada um se vira como quer.

A arquitetura de Paris, a organização de ruas e avenidas, a disposição dos prédios, as alamedas de
árvores desnudas pelos ventos do inverno, o sol brilhando frio no céu azul, logo tiraram minha mente dos “Brésiliens” decadentes. O som do francês bem articulado de Johann, a Bossa Nova na voz de Henri Salvador na rádio, e a percepção de estar trafegando pelas ruas sobre as quais lia nos livros de história trouxeram um sentimento de conquista, de Neil Armstrong na Lua. Mas a bandeira cravada era a brasileira, do Brasil de Catarina Paraguaçu, de Santos Dummont que voou sobre ali no 14 Bis, da música inventada por João Gilberto e Tom Jobim que havia conquistado os franceses desde a década de 60. Era o Brasil na França de forma torta ou direita, mas o Brasil.

E aí, chegamos à Torre. Quando estávamos estacionando, porém, a surpresa. Me transportei de volta às ruas de Salvador ou do Rio – as lembranças da terrinha nunca saem de nós. Nem havíamos saído do carro quando um grupo de 30 a 40 imigrantes (provavelmente) senegaleses, com mochilas nas costas e sacolas pesadas nas mãos, corriam desbandeirados pela rua, gritando “Allez! Allez! e fugindo do RAPA. Sim, tem RAPA em Paris! Os imigrantes ficam pelos pontos turísticos vendendo souvenirs da França sem pagar impostos. Então, vez ou outra, como acontece por aqui, a polícia chega e leva tudo embora e prende os vendedores, boa parte dos quais está ilegal no país. A maioria deles é africana, há alguns do oriente médio também. Quando eu vi aquele monte de homens correndo em nossa direção, pensei que estivesse acontecendo algum atentado a bomba. Meu amigo viu minha cara de pânico e logo tratou de me acalmar, me explicando a situação. A Paris dos meus romances e filmes piegas já não estava tão deslumbrante assim. Na verdade, estava muito semelhante às cidades brasileiras que eu conheço. Mas vá lá, a Torre Eiffel continua linda! E dali a alguns dias eu estaria de volta a ela. Esperando ver um show de fogos de artifícios e música eletrônica pra esquentar a noite.

Esperei ansiosamente pela noite do réveillon sem comentar com meus amigos sobre minhas expectativas. Apenas aguardava enquanto fazia meus passeios, desbravava a cidade, desenferrujava meu francês e viajava pela terra do Homem da Máscara de Ferro – falarei sobre tudo em outros posts.
 
O dia 31 veio cheio de novas aventuras. Eu estava hospedado na casa de meu amigo, mas no dia 31 e 1º resolvi ir para um hostel mais ao centro da cidade sob os protestos de Johann e sua família que me diziam “on ne peut pas croire, Marciô. Tu dois rester chez nous! Un hostel!”. Mas eu fui, afinal, se a noite é uma criança, em Paris é ela é um feto em formação. Especialmente no último dia do ano. Queria andar pelas ruas até de manhã, chegar em casa bêbado de café com chocolate e dormir até o pé fazer bico sem incomodar a rotina de uma família tão gente boa e acolhedora.

Me lembrei que se estivesse em Salvador, teria ido à praia de manhã, visto o pôr-do-sol na Ponta de Humaitá e depois me reunido com a família para agradecermos ao Eterno pelo ano que passou. Depois, era cada um pra um lado à procura de festas e muvuca. Em Paris, passamos o dia rodando, encapotados, caminhando no frio sob a deliciosa garoa fina que ia e vinha abençoando nossa caminhada. Visitamos catacumbas e museus. Comemos baguetes, falafels e crepes imensos com Nutella. Batemos perna o dia inteiro. Vimos a cidade viva, sentimos o cansaço morto e fomos para o hotel onde meus amigos estavam hospedados.

Por volta das 22 Gabi resolveu fazer uma pequena ceia de Ano Novo com coisas que havíamos comprado no mercado no caminho de volta ao hotel deles. Uma macarronada deliciosa para restaurar as forças dos andarilhos! Nos deliciamos com o banquete, brindamos, fotografamos, e saímos para ver a despedida do ano junto à Torre Eiffel, onde Johann e alguns amigos seus iam nos esperar.

Não é necessário dizer que metade da população teve a mesma ideia e as estações de metrô se empanturraram de residentes e turistas felizes. Mas tudo de forma ordeira, sem tumulto, sem agonia. Alguns dos que seguiam conosco levavam garrafas de champanhe nas mãos, outros iam com elas dentro da sacola. Localizamos nosso anfitrião e ficamos conversando, conhecendo gente e contando o tempo para a agonia começar. Paris é uma festa!  Mas não uma festa cheia de fogos de artifício, luzes coloridas no céu, shows musicais e champanhes explodindo, conforme descobrimos alguns minutos antes da meia-noite. É isso mesmo: nem fogos, nem vela, só uma torre amarela, sem música, sem bombas, sem barulheira. Se é o oposto  disso o que você procura, na véspera de ano novo não vá à Paris porque será uma imensa decepção. O governo parisiense não se dá ao desfrute de queimar milhares de euros num show pirotécnico de 15-30 minutos como se faz no Brasil e em outras partes do mundo, nem gasta verba pública pagando artista para cantar pro povo; o máximo que fazem é acender as luzes da Torre Eiffel à meia-noite como piscas-piscas de Natal – por isso, é melhor estar por lá do que no Arco do Triunfo onde o único sinal da virada do ano é o grito da populaça ensandecida, mas muitos desavisados vão para lá e voltam com cara de tacho.


A festa propriamente dita está no simples fato de nos encontrarmos na Cidade Luz, nas largas ruas cinzentas e frias sustentando seus vetustos prédios de cimento e mármore que contrastam com a decoração de luzes coloridas, desde as proximidades do Louvre ao Arco do Triunfo, e que estão cheias de stands de comidas típicas do mundo inteiro, inclusive churrasco brasileiro. A alegria se dá por estarmos cercados por estranhos que te abraçam ao “badalar dos sinos” (utilizo a expressão apenas ilustrativamente, uma vez que a crescente comunidade muçulmana francesa reivindicou do governo que proibisse o repicar dos sinos das igrejas cristãs por se sentirem ofendidos; mesma razão pela qual você não verá ou ouvirá pelas ruas ou lojas nenhuma das bandeirinhas ou musiquinhas de Joyeux Noël - Feliz Natal), e gritam, pulando com você “Bonne Année! Bonne Année!” ou qualquer expressão semelhante em suas próprias línguas maternas.

Outra curiosidade é que essa folia toda se dá sem que as pessoas estejam bebendo, pois é proibido ter garrafas de bebida alcoólica nas ruas. Portanto, não leve sua bebidinha para celebrar o Ano Novo como muita gente estava fazendo. Se você for sair do hotel e precisar de álcool para se locomover, beba antes e vá porque a polícia, infiltrada na multidão, te rende e leva sua cachaça embora. Vi


beberrinhos e beberrões com cara de cachorro que quebrou o prato olhando as mãos vazias depois que os canas levaram sua manguaça embora. Alguns imigrantes te oferecem bebida na rua, não compre! É contra a lei. Se quiser beber, vá para um bar ou café nas proximidades da Torre ou do Arco, lá as pessoas estão bebendo seus vinhos, seus champanhes, chás, cafés, e compartilhando da doce companhia de estranhos e amigos instantâneos nas ruas abarrotadas, enquanto esperam a multidão ir aos poucos desocupando as estações de metrô – que até ao meio-dia do dia 1º não cobram tarifas – e sentem o vento gelado da noite francesa na calçada em frente aos bares, restaurantes e cafés sendo esquentados pelo calor humano aceso ao redor nos olhos daqueles que nessa data tão emblemática estão buscando novos começos, novos caminhos, novas amizades. Pessoas que serão capazes de te parar na rua e cantar pra você como se saídas de um filme desses que se viam até os anos 60 – como aconteceu conosco quando subíamos a rua de madrugada em direção à gare e um francês regado a vinho pulou na nossa frente e começou a cantar “I wanna love you”, de Bob Marley, segurou um de nós pela mão e começou a dançar em plena rua, cantando a plenos pulmões e parando a multidão que vibrava com aplausos e assobios ao nosso redor. Trazendo ao nosso íntimo a questão: pra que fogos, pra que shows caríssimos, pra que explodir champanhes?


O importante mesmo era celebrar o ano que passou, agradecer as conquistas e as dificuldades que nos fortaleceram, lançar vibrações positivas para os próximos 365 dias e seis horas, pensar em nossos entes queridos, todos eles, e lhes enviar nosso amor, olhar ao redor e ver tantos rostos estranhos felizes, tanta gente desconhecida conversando como se te conhecesse há anos e nossos amigos ainda mais amigos do que há alguns dias. Essa é Paris do Réveillon: a cidade das novas descobertas, sem fogos de artifícios.