terça-feira, janeiro 12, 2016

Europa em 60 dias - Madrid e Barcelona - Beleza e inspiração


Plaza Mayor - Espanha
O país das touradas me recebeu numa madrugada fria e de garoa. Eu, apreensivo com o que tinha me acontecido na Itália (http://marciowaltermachado.blogspot.de/2015/12/europa-em-60-dias-roma-italia.html), desci no aeroporto de Barajas pensando no que me esperava pela frente. Sabia, com certeza, que a recepção nas ruas seria diferente da recebida na Romênia (http://marciowaltermachado.blogspot.de/2016/01/europa-em-60-dias-bucareste-e.html), mas ainda assim, o fantasma do hostel italiano miserável me assombrava.
Uma ruazinha de Madrid
Mas vamos lá. O negócio é levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Afinal, depois de algumas horas de voo o que a gente mais quer é um banho morno e uma cama quente pra repousar a cabeça. Por isso eu corri para o ponto de ônibus. Nao precisei de pegar táxi, pois há serviço de ônibus do aeroporto ao centro de Madrid e vice-versa 24 horas e custa apenas 5 euros. É só você sair do aerporto, virar à direita e caminhar até o ponto, que fica dentro do complexo aeroportuário de Barajas. A tarifa você paga ao próprio motorista.  
Após uns 40 minutos, o ônibus me deixou na Plaza de Cibeles, bem no centro de Madri. O local me surpreendeu bastante nao só porque a cidade era linda de se ver à noite, mas também pelo burburinho e gargalhadas da gente alegre e festiva pelas ruas em plena madrugada de segunda para terça. Essa alegria contagiante era o que eu estava precisando depois da sisudez romena. Madri pode nao ter dançarinos de flamenco pelas ruas nem o povo tocando castanholas, mas desde o primeiro momento me pareceu uma cidade viva e colorida. Olé!
Meu hostel, como de costume, fica num bairro bem Central da cidade - aliás, fiquei em dois hostels. Um antes de ir a Barcelona e outro depois de voltar de lá. Ambos bem no coração de Madrid; ambos muito bacanas. - Então, de Cibeles para lá foi só uma caminhadinha de 15 minutos até a galera, só  por observar minha cara de menino amarelo perdido na cidade grande, me pôr na rua certa sem eu nem pedir por isso. Ah, recepção latina! Tudo de bom!
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A principio pensei que toda aquela alegria pelas ruas era devida à proximidade do Reveillon, que viria com toda a pompa e circunstância, mas, caminhando pelas avenidas e ruas estreitas enquanto conversava com as pessoas nos dias seguintes, descobri que a cidade era assim mesmo - sempre! As festas de fim de ano eram só mais uma desculpa para que os caminhos e as vias se abarrotassem de gente com sacolas e comidas ou bebidas nas mãos e os risos estampados nos rostos. No dia 31, por exemplo, desde cedo pela tarde, formou-se uma fila gigantesca na direção da Porta do Sol, onde aconteceria o show da virada. Eu, obviamente, depois de bater perna acima e abaixo, me juntei com uma galera massa que conheci no Free Walking Tour e no meu quarto e a gente foi celebrar o ano novo, primeiro no hostel, e, depois, no meio da muvuca espanhola.
Porta do Sol - Madrid
A cidade parecia um verdadeiro carnaval no 'ultimo dia do ano. Era incrivel ver as ruas, lotadas, as pessoas usando perucas coloridas e gritando "Feliz Año, amigos" quando se aproximavam de nós. Só o andar por entre a gente sem medo de roubos, sem medo de violência, na paz e na alegria já teria valido a festa. No entanto, não era possivel esquecer a ameaça muçulmana que tem assolado a Europa de uns tempos pra cá. Em meio a alegria, podia se ver rostos apreensivos, mesmo com todo o esquema de segurança montado pela polícia e pelo Exército - vários carros, cavalos, motos, helicópteros, tudo para garantir que o terror nao nos atingiria. E ai vale a ressalva de uma coreana que conheci no hostel: o terror deles é a nossa segurança aqui, há males que vêm para bem. 
Pois é, o terror não apareceu e os espanhóis, mesmo na falta de fogos de artificio, sabem como celebrar.
Parque do Bom Retiro - Madrid
Foi uma festa enorme, pessoas dan
çando e cantando, abraçando e beijando estranhos. Tudo na mais pura farra. Por onde quer que a gente andasse era festa. Passamos, aliás, na frente de um restaurante onde havia um grupo de pessoas pra lá de Marraqueche e fomos intimados por eles a entrar e participar da festa. Um free round pra mim e meus amigos. Como eu não bebo cerveja, fui mesmo num vinho tinto espanhol delicioso para saudar 2016 e ouvir os espanhóis borrachos contando histórias e rindo e a gente rindo mesmo entendendo com dificuldade o que, eles diziam. Mas concordando com tudo. Era balançar a cabeça, apurar os ouvidos, fazer que entendia perfeitamente e dizer: "Por supuesto, amigo! Cuentame!" que eles começavam a falar pelos cotovelos e rir, e nós rindo também. Afinal, esse é o espirito de celebração: um pouco de música, um pouco de dança, amigos novos e muitas risadas pra receber os próximos 365 dias e 6 horas que vêm pela frente.
Porta de Alcala - Madrid
Catedral de Madrid
Eu sei que entre conversas aqui, jamons ibéricos ali, queijo acolá, minha mesma tacinha de vinho e muita cerveja pros outros, lá pras três da manhã, quando enfim conseguimos sair de volta para o hostel, minha amiga coreana meio que carregada, falando "anyong anyong anyong" a torto e a direito, estava frenética, queria dançar no meio da rua - e dançou! queria cantar no meio da rua, e cantou! Era praticamente uma Gene Kelly pelas ruas de Madri. As pessoas aplaudiam entusiasmadas. Foi uma graça de ver a espontaneidade infantil dela. Pensem numa coreana bêbada dançando em plena Gran Via, sob o céu nublado da madrugada fria de Madri. Foi assim até chegarmos ao hostel. Não tinha como não rir. E eu dizia, "Kim, menos, moça!", e ela respondia em inglês vacilante: "Na Corea a gente tem de ser direitinho, eu to de férias, quero mais que o circo pegue fogo!", (não bem com essas palavras, mas...)
No dia seguinte, enquanto meus companheiros de quarto curtiam sua ressaquinha primeira do ano (a Kim, da vida), eu tomava meu cafezinho quente, com meus churros de chocolate - uma delicia que eu descobri em Madri - e minha torta de cebola - Vamos combinar que os espanhóis são bons de boca! E tem um negócio de um pão regado a azeite de oliva que é uma cisa de louco! - pra que manteiga, pra que geléia, quando existe pão com azeite de oliva!?
Palácio das Comunicações - Madrid
Madri é um luigar onde se come bem e barato, se conhece pessoas do mundo inteiro e se pode bater um papo legal nas ruas com estranhos  que sempre estão abertos a uma prosa, a saber de onde você vem e te dar dicas importantes sobre diversão na cidade. Há lugares lindos. Na verdade, todo canto que a gente olha dá um flash - ou vários. São ruazinhas bonitas e estreitas, muito parecidas com as de Portugal e as do resto da Europa medieval, mas também há grandes e largas avenidas como a Gran Via, lugar pra quem quer fazer compras a preços de todos os tamanhos e para todos os bolsos. E essa é mais uma das coisas que Madri consegue fazer, unir o velho e o novo, incluir tudo. O mesmo lugar que comporta a Gran Via e a Plaza Del Sol, também tem os Jardins do Bom Retiro. Passei horas caminhando por ele, sentando, observando, fotografando, conversandoúsicas, um grupo de jazz, uma banda tipo Rey Connif que tocou Aquarela do Brasil umas duas vezes seguidas! E isso sem falar no Palácio de Cristal que enche os olhos da gente - meio na pegada do que temos em Curitiba, tão lindo quanto, pelo menos.
Na fria tarde de inverno, um periquito alegrando o dia
com pessoas, ouvindo os artistas tocando m
Mas eu não vou me estender muito em lugares para visitar neste post, prometo que falo deles detalhadamente (e de onde comer bem e barato) numa publicação futura próxima. Aqui listo os 10 lugares imperdiveis na minha opinião: Porta do Sol, Jardins do Bom Retiro, Porta de Alcalá, Museu do Prado, Plaza de Espanha, Gran Via, Chueca, Plaza Mayor, Catedral de Madrid, Palacio real de Madrid. E o melhor de tudo é que eles estão a poucos minutos um do outro!

Barcelona - que delicia de cidade!

Bairro Gótico - Barcelona




Uma das principais razões pelas quais eu decidi ir a Barcelona foi a curisosidade implatada em mim por uma de minhas professoras da época em que estudei em Dublin. Emma, uma irlandesinha gente finissima, falava de Barcelona com tanta saudade e paixão, com os olhos tao brilhantes das memórias do tempo em que ela viveu por lá, que eu coloquei como ponto número um visitar a cidade quando estivesse na Espanha.
Barcelona e suas bandeiras nas janelas
Parc Guëll
E eu rumei pra lá logo após o desayuno do dia primeiro. Disse um tchau pra Kim, que me abraçou rindo, com uma cara de ressaca cômica, e dizendo com sotaque coreano "Márcio, obrigada pela farra" (no português que eu tinha ensinado a ela), peguei minhas coisas e parti em direção a estação Atocha Renfe a pegar o trem para Barcelona. A frota de ônibus é reduzida em dias feriados, então, como deixei pra comprar o bilhete na última hora, a solução foi mesmo o trem. Embora o valor seja salgado, 112 euros, não me arrependo de tê-lo pago. O ônibus leva em média sete horas para chegar, o trem apenas três, precisamente. O caminho que ele faz te deixa boquiaberto. Passamos por lugares ermos, de chão árido como o sertão brasileiro; deixamos para trás moinhos de vento e parques eólicos; vemos pueblos encravados aos pés de montes ou em vales, protegidos por castelos ancestrais ou fortalezas no topo das colinas - é uma visão apaixonante que me fez lembrar Don Quijote nos caminhos da Espanha, criando histórias de monstros, cavaleiros e donzelas em apuros na minha cabeça de aspirante a escritor. 
E a tarde, passando assim tão poética e calma, quase não deixa a gente perceber que as horas estão indo
embora, de maneira que quando chegamos a Sants Estació, em Barcelona, fiquei surpreso ao perceber que o sol ja estava se pondo. Dali em diante era picar a mula antes de a noite cair e me deixar azoado procurando meu hostel na escuridão da noite barcelonense. Mas antes de prosseguir no meu itinerário, foi preciso parar para observar um fato inusitado que aconteceu. Assim que desembarquei na estacão, fui surpreendido por um casal de surdos-mudos que pareciam desesperados, gesticulando muito nervosos, contando alguma coisa aos policiais que estavam com eles. Até ai é um fato nomal, pessoas, surdas-mudas ou não, reclamam! o intressante foi ver que os três policiais que lá estavam falavam em Libras com eles - todos os  três! - Isso foi o que me surpreendeu ao extremo. Embora o Brasil tenha inúmeros projetos de inclusão, nunca vi um policial se comunicar em libras, nem um médico, raramente vejo um professor. Talvez a gente precise ainda despertar para o fato de que pessoas que não se comunicam em idioma falado, têm uma outra lingua e que nós precisamos conhecê-la, porque não existem um ou dois surdos-mudos, são milhares, talvez milhões deles em nosso pais, e quantos de nós conseguem tirá-los do "gueto" e trazê-los pra sociedade através da comunicacão? Barcelona está de parabéns!
E não só pela inclusão social, mas também pela limpeza das ruas, pela beleza dos parques e praças, pelas obras arquitetônicas de Gaudi e a arte de vários desconhecidos, pela organização e respeito do sistema de
transporte público, pela gentileza das pessoas nas ruas e seus sorrisos largos depois da cara de espanto de saber que eu era brasileiro - sempre me perguntavam de onde eu vinha quando eu pedia informação. Enfim, a velha e boa Barça e seu idioma catalão por todos os lugares nos convida a deixar as malas no hostel e não pensar em voltar pra casa tão cedo, afinal, lá, a gente se sente em casa, começando um nova etapa de nossa caminhada. Lá, em Barça, os vários caminhos se cruzam e nossas vidas parecem ficar melhor. Essa foi a sensação mais recorrente que tive. Além do que, diferentemente de outros locais aonde fui, os visitantes de Barcelona parecem estar buscando uma conexão humana maior do que em outros lugares, estão mais abertos para um papo e qualquer água fria vira um motivo pra uma longa conversa. 
Bairro Gótico - Barcelona
Foi assim, por exemplo, que conheci a Judith, uma senhora de setenta e poucos anos que aguardava comigo na recepção do hostel pelo guia do Free walking Tour - estou viciado nisso! e o nosso guia aqui era um irlandês muito bacana que falava /ting/ (thing) e /roish/ (right) matando minha saudade do dialeto da Ilha Esmeralda - e que, antes de ele chegar, me contou a nova etapa da vida dela. A nova história de Judith começa dois anos após a morte de seu marido. Segundo me contou, no começo de dezembro, ela vendeu a casa e o carro, alugou um galpão para pôr as coisas mais queridas e relevantes para ela, abriu uma conta poupança e se tornou uma "elderly hippie girl, sem teto, que não se conformava em ficar sentadinha numa cadeira de balanço assistindo programinhas de TV alienantes, e vendo seu corpo se entrevar e seu resto de vida se esvair enquanto a morte se aproximava". Ela estava viva e enquanto estivesse assim, ia conhecer e viver oças estão vindo em meu caminho!
que não tinha conhecido e vivido antes. E o mais interessante nisso era ver o misto de sabedoria e entusisamo, uma chama ardente nos olhos e um querer pelo novo, pelo desconhecido. Aquela senhorinha de olhos azuis, cabelos brancos e rostinho redondo me tocou de uma forma emocionante. Depois de conversar com ela por mais de meia hora e saber que ela, aos setenta e poucos, estava tão cheia de vida e de sonhos, que se recusava a deixar a idade e os dias drenarem sua vida, senti um desejo enorme de mudar algumas coisas no meu próprio modo de viver. Essa senhora me fez reiterar a ideia acerca de algo que já vinha me incomodando há algum tempo: o quanto de supérfluo e de perda de tempo há em nossos dias; e o quanto nós deixamos a vida correr por entre os dedos por estarmos presos nos nossos mundinhos tão pequenos. Obrigado, Judith, mudan
Aliás, eu acredito que ela foi uma inspiracão não só pra mim, mas para todos os que foram no passeio
Fonte Mágica Montj
conosco. Pelo menos todos falávamos dela com um carinho e uma admiração muito grandes. Digo, não sei se todos, mas os outros novos amigos que fiz pelo caminho: 3 brasileiros estudantes de arquitertura na França e um australiano estudante na Suécia. Todos muito gente boa e que me acompanharam nos três dias que passei nessa incrivel cidade espanhola. Foram eles, aliás, que me despertaram maior interesse em conhecer Gaudi e seu trabalho. Obviamente eu conhecia a Sagrada Familia e o Parc Guell, mas não sabia nada sobre o homem atrás deles - agora sei, senhor e senhoritas da Arquitertura. Estudei Gaudi nas minhas horas entre um aeroporto e outro! e acho que vocês estão certos, o homem era um gênio criativo.
No entanto, por mais fascinante que as obras de Gaudi sejam, o que eu vou levar de Barcelona
não é apenas a caminhada maravilhosa pelo Parc Guell ou a visita à igreja da sagrada familia, a caminhada pela Barceloneta ao pôr-do-sol, e nossas caras de admiração diante das águas dançantes e coloridas das fontes mágicas de Montjuic. O que vou levar pra sempre mesmo é a sensação de amizade e carinho das pessoas que conheci lá, como meus amigos da arquitetura que mudaram os planos de conhecer o Pavilhão de Ludwig Mies van der Rohe para acompanharem a mim e ao nosso amigo Aussie que não entendiamos nada de arquitetura e que provavelmente ficariamos boiando diante do monumento; a conversa entusiasmada e calorosa de Judith pela vida que ela está transformando e a música saida do violoncelo que uma alemã tocava em pleno Bairro Gótico - e, é claro, todas as histórias que ouvi pelo caminho e todas as ruas de pedras pelas quais passei.

Lugares imperdiveis em Barcelona:
Barceloneta
Fontes Mágicas de Montjuic, Castelo de Montjuic e Museu
Nacional da Arte Catalã
Parc Guell
Las Ramblas
Bairro Gótico
Catedral da Sagrada Familia
El Born
Museu Fundação Juan Miró
Mercat de La Boqueria
Aquarium


Gostaram? Então divulguem ai.

Bj em todos e muitos churros de chocolate pra vocês!








sexta-feira, janeiro 01, 2016

Europa em 60 dias - Bucareste e Transilvânia - Romênia


Citadela Rasnov
O que vem a sua cabeça quando você escuta a palavra
Romênia?  Para mim sempre foi um lugar associado a duas coisas: Transilvânia e Tristan Tzara. A primeira, pelas obvias razoes - Drácula, lobos, ficçao; a segunda, porque o poeta romeno Tristan Tzara foi um dos criadores do movimento vanguardista chamado Dadaísmo, o qual eu tive de estudar e restudar na escola e na faculdade de Letras. Claro, também sabia um pouco da história do comunismo no país, já vira várias fotos dos Cárpatos, estudei as estruturas gramaticais da língua em "Filologia Românica" - obrigatória no meu curso -, e conhecia um pouquissimo do restante, mas nada além disso. Nao podia comparar, por exemplo, as minhas expectativas com relaçao a Portugal e Itália, dos quais sabemos praticamente tudo. De resto, a Romênia  era um país a ser explorado em todos os aspectos, um lugar onde, caminhando pelas ruas, incrivelmente, nao ouvi sequer uma palavrinha em língua portuguesa-brasileira! E isso é inacreditável, pois todo lugar do mundo que a gente vai, especialmente nas férias, ouvimos brasilês a toda hora. Razao pela qual meu camarada Rodrigo, o chileno que fala português, sempre me perguntava em Roma: "Ficou alguém em seu país neste fim de ano?".

Dessa vez, graças a Deus, peguei um voo diurno e cheguei a Bucareste em plena luz do dia. Se nao
Velhinho dormindo na praça em Bucareste
para evitar os transtornos da viagem anterior, pelo menos pra me assegurar de que nao haveria nenhum mamífero voador procurando meu pescoço. Nao houve nenhum problema, aliás, o desembarque no aeroporto de Otopeni foi totalmente tranquilo, o agente de imigraçao muito educado, carimbou meu passaporte com um sorriso meio sem saber como sorrir e disse: "futebol é bom!". Eu sorri latinamente, disse "yes" e me mandei em busca de transporte para o centro da cidade com medo do sol se pôr antes de eu chegar por lá. Aqui vale uma recomendaçao feita por todo romeno que conversou comigo: JAMAIS pegue táxi em Bucareste, mesmo aqueles registrados e com o nome da empresa e o taxímetro (aparentemente) contando os km rodados. O primeiro motivo é que eles vao te enganar; o segundo motivo é que eles vao te extorquir. Me disseram que quando eles veem turistas, fazem o caminho de 2.5 Lei (a moeda local) se transformar em 100 Lei. Neste período que estive lá o Lei estava equiparado ao Real, 4.5 para 1 Euro - troque o dinheiro antes de chegar na Romênia. Lá eles nao aceitam outra moeda que nao o Leu e vários estabelecimentos, inclusive hostels, nao aceitam cartao de crédito.  

Biserica Baratiei SF. Maria a Harurilor
Prefira pegar o ônibus n. 783 que parte do aeroporto para a Piata Unirii 2. Lá você estará perto de tudo. Para isso, saia pelo portao de desembarque, vira à direita e se dirija até a cabine de vendas de cartao de ônibus. Compre seu cartao - o cartao é para duas viagens, ou seja, ida e volta, esta nao precisa ser no mesmo dia. Eu fiquei em Bucareste por 3 dias e usei o mesmo cartao para voltar ao aeroporto - Valide seu cartao dentro do ônibus e se mande. Você verá os nomes das paradas numa telinha em cima da cabine do motorista. Fique de olho nela, pois a populaçao, exceto os jovens (talvez), nao falam ou nao se importam de falar outra língua ou em conversar com você. 

Catedral Sfântul Spiridon Nou - Bucareste
Preciso fazer uma recomendaçao com o único propósito de ajudar vocês: fiquem no The Cozyness Downtown Hostel. O lugar é totalmente agradável, você se sente em casa, e o staff é particularmente atencioso e muito feliz em ajudar. Da Piata Unirii 2 até o The Cozyness Bucareste sao apenas 7-10 minutos de caminhada em sentido reto. Há também a comodidade de o hostel estar localizado a apenas alguns minutos de caminhada de todos os pontos turísticos importantes de Bucareste. 

Centro de Bucareste iluminado para o Natal
Bom, chegando à Piata Unirii, o papai aqui foi, como sempre, olhar o mapa e se perder mesmo já tendo feito minhas caminhadas pelo centro de Bucareste via Google Maps 3D. Daí inventei de fazer o que mais gosto quando estou viajando: conversar com as pessoas locais. Vi aquele senhorzinho caminhando em minha direçao, virei pra ele e disse "Ajuta Hotel" (algo como "me ajude a chegar em meu hotel, olhe o mapa aqui em minha mao. Será que o senhor poderia me indicar qual destas quatro ruas me leva a ele?"). O senhorzinho, me olhou e disse sonoramente: "NO!". Virou a cara e continuou andando, assim, sem cerimônia, enquanto eu, estupefato, ficava lá, no meio da praça com cara de "o quê? É isso mesmo?". Tá bem, escolhi a pessoa, errada. Fui à segunda pessoa, mapinha na mao, uma senhora a caminho: "ajuta hotel". Você me olhou? nem ela! virou a cara (MESMO!) e se mandou. E assim com a terceira, a
Pôr do sol sobre a praça Unirii
quarta, a quinta. Desisti. Fui procurar um táxi apesar de todas as recomendaçoes, pois nao havia nenhum policial ou servico de informaçao ao turista que eu pudesse ver. O primeiro taxista tinha um GPS, mostrei meu endereço e ele me disse em inglês partido "Nao sei onde fica", eu retruquei "seu GPS ali", ele: "nao é um GPS, é só um programa". Eu olhei bem no olho dele e por dentro de mim disse cobras e lagartos que me vieram à boca com o som de "thanks for your help" e o complemento em português: "tomara que ninguém pegue seu táxi hoje, miserável" - sorri e parti em direçao ao desconhecido. Nem me importei em perguintar a outros motoristas adivinhando qual seria a resposta. Mas a memória é uma coisa fantástica, e me fez ir reconhendo os prédios do Google maps na medida em que caminhava pela calçada limpa daquela avenida bonita e bem organizada com um sol vermelho lindo se pondo atrás dos prédios eregidos pelo regime comunista do megalômano Nicolae Ceaușescu /Txétxêshcu/. Fui caminhando, e descobri a rua! Estava ali, cinco minutinhos de caminhada desde a
Piata Universitatii - Bucareste
parada de táxi. Por isso que ele nao quis me levar, nao quis me extorquir, nao quis nem me dizer que era só continuar andando. Cheguei, me instalei e fui conhecer a galera bacana que trabalhava e a que estava hospedada no hostel The Cozyness Downtown Bucareste. A noite foi superagradável ao som de uma galera romena que estava lá tocando música local no violao enquanto eu escrevia meu segundo post sobre Portugal e conversava com Georgiana, uma romena extremamente simpática que me deu dicas sobre o lugar, me disse o que fazer e como agir na Romênia e conversou comigo sobre seu país, seus planos presentes e futuros e seu amor pelas artes e pela arquitetura. A conversa com ela, regada a chá de morango e um racambole delicioso de mel com amêndoas feito pela mae de Ilinka, a recepcionista, tiraram de mim toda a má impressao dos romenos anteriores.
Piata Unirii

Catelo de Bran -Transilvânia
Castelo de Bran - Transilvânia
Uma outra recomedaçao é: sempre que estiver viajando, procure no hotel/hostel por Free Walking Tours reconhecidos, que sao os passeios gratuitos que algumas pessoas oferecem pelos pontos turísticos da cidade e que também se torna uma maneira de fazer novos amigos de várias partes do mundo. Ilinka me indicou que fosse encontrar o pessoal do free tour na praça Unirii, pois seria melhor que ir andando sozinho numa cidade com um povo tao pouco simpático aos turistas. Com eles, conheci todos os pontos importantes de Bucareste, aprendi a história local contada por uma Romena e confirmada pelos meus estudos da cidade, e entrei em contato com várias pessoas legais, inclusive um português que estava estudando numa cidade próxima a Bucareste e que ficou hipercontente em poder conversar em português com alguém depois de 6 meses sem falar sua língua materna. O passeio foi incrível e bem produtivo. Em vez das caras fechadas e dos "NO!" enfáticos, conheci gente sorridente e me diverti muito. Mas o que eu mais queria era ir a Transilvânia e conhecer os terrores do Conde Drácula e seu castelo nos Cárpatos.

Saída do Castelo de Bran
O passeio pela Transilvânia quase nao rolou por que o cabeça de nós todos aqui simplesmente resolveu deixar as coisas acontecerem. Ah, uma vez em Bucareste, o resto se resolve! Bom, foi o que pensei. Nao levei em consideraçao que os museus fecham às segundas, e, que por isso, nao há passeios para a Transilvânia nesse dia. Cheguei no sábado à tarde, parti na terça no mesmo horário. E, pensando que era tudo festa, usei meu domingo pra passear por Bucareste. Quando voltei à noite pro Hostel foi que soube do problemao. Mas, como diz o ditado, sempre há uma luz no fim do túnel quando contamos com uma recepcionista imbatível e incansável. A Ilinka ligou pra umas trezentas agências de viagem até descobrir uma que fazia o tour para a Transilvânia - só nao iria ao Castelo de Peles /Pelesh/, um dos mais bonitos da Europa. Mas na moral, quem se importava com Peles, a minha pele tava aqui, queimadinha do sol da Bahia. Queria mesmo era ver os Cárpatos e o Castelo de Drácula (Bran). Passei a infância e adolescência sonhando com aquele lugar, vendo Scooby Doo e sua patota entrarem em apuros, vendo Keanu Reeves nas garras de Gary Oldman, etc. etc., vendo reportagens na TV sobre as assombraçoes que assolavam o castelo e pititi patatá. Peles a gente veria pela TV qualquer hora dessas.
Castelo de Bran - Transilvânia

Bom, meu guia e motorista foi me pegar às 7 em ponto, pois, junto com outros sete turistas, teríamos uma grande jornada pela frente. Ao todo, a viagem duraria por volta de 10 horas contando com a ida, visitas e a volta. Mas quem se importa com o tempo quando se tem todo o tempo do mundo, paisagens deslumbrantes diante de si e um guia muito engraçado com cara e jeito de Joey Tribbiani de Friends e uma pegada no estilo do Forrest Gump. Lá estava ele, o Mathei, dirigido sua Mystery Machine, contando as histórias da Romênia e de cada cidadezinha pela qual a gente passava. E eu maravilhado diante do que via. Parecendo um chinês a tirar foto de tudo, até dos semáforos que pareciam mais brilhantes que os nossos.

Devo confessar, no entanto, que o Castelo de Bran me decepcionou. Nao porque ele nao tem nada a ver com Vlad Tepes, isso eu já sabia, a história dele gira em torno da lenda de Drácula devido a uma confusao geográfica de Bram Stoker. Mas porque o lugar por dentro mais parece uma casa de campo de uma galera endinheiradinha do que um castelo propriamente dito. Castelo por castelo, fico com o Dias D'Avila, na Bahia. Apesar disso, vale a pena visitar o castelo, conhecer a história dele e também se deliciar com a vista. Aos pés da colina onde ele se situa, há uma cidadezinha maneira, e um mercado vampiresco onde se pode comprar souvenirs, roupas, comida. É bem legal, só nao espere sorrisos nem demonstracoes esfusiantes de agradecimento ou cortesia, estamos na Romênia.
Citadela Rasnov - Romênia

Citadela Rasnov - Romênia
Foram dois os pontos altos da viagem, para mim. O primeiro é a citadela de Rasnov /Rashnov/. Erigida no topo de uma colina e usada em tempos idos para defender o povo contra os otomanos. Para chegar a ela, pode-se pegar um bondinho que sobe e desce a cada três minutos ou ir andando. Eu subi andando para poder contemplar a vista e a estrada de acesso e também para passar tempo conversando com dois dos turistas que estavam comigo no passeio. Um deles do México e o outro do Egito, ambos estudantes em Barcelona pelo Erasmus Mundus. Enquanto subíamos íamos conversando sobre nossos países, economia (ambos fazem mestrado em economia na Espanha), Barcelona, um dos meus próximos destinos, las chicas e, nao poderia deixar de ser, sobre a família dos Estados Unidos que estava conosco na viagem e que nao se comunicava com nenhum de nós, apesar de todos conversarmos em inglês no carro. Sempre que o guia se dirigia a eles contando alguma coisa dos lugares, respondiam mecanicamente com frases feitas do tipo: "Oh, interesting", "Oh, really?" e assim por diante. Lembro do camarada mexicano me perguntando "What's wrong with those people?", ao que eu respondi: "United Statesans". Acho que estar com eles foi a parte mais assustadora da viagem a Bran :)

Centro de Brasov - Romênia
A cidade de Brasov /Brashóv/, a terceira mais populosa do país, também é uma atraçao imperdível. Bem diferente de Bucareste, as pessoas sao mais acolhedoras (na forma romena de ser), os lábios se abrem um ou dois milímetros quando riem e aqui eles arranham no inglês. Recomendo o passeio, o almoço e a subida de teleférico aos letreiros da cidade. A vista é maravilhosa pelo que eu vi nos videos que encontrei na net. Nao pude subir porque quando chegamos o sol já estava quase se pondo. Brasov, no entanto, ficará na memória.

A Romênia deixou de ser um lugar místico e

cheio de superstiçoes para mim, mas, apesar dos pesares, continuou como a terra da poesia romântica de Mihai Emenescu e dos frases dadaístas de Tzara. Colocando as partes numa sacola, tirando-as sem pensar muito, forma-se um poema dadaísta cheio de beleza e de colorido, mas, dadaísta sempre e sem muitos sorrisos largos. A nao ser o meu, na hora de ir embora. Nao porque quisesse me livrar do lugar, mas porque, depois de três dias de frio suportável, quando abri a porta do hostel para andar até a praça Unirii, a neve começou a cair. Uma neve pesada, branquinha, que ia cobrindo as ruas, os telhados das casas, minha cabeça, meu sobretudo. A neve que eu tanto queria ver. Foi assim que a Romênia se despediu de mim, com um beijo molhado e frio, mas radiante, do meu hoste até o aeroporto.

Gostou? Entao divulgue!!

Vejo vocês na Espanha!


Tervetuloa Turkuun! Turku, a cidade da margarida gigante.

“Perplexidade” – essa é a palavra que toma conta de nós quando ouvimos falar de ataques terroristas. Pois, é difícil entender, por exem...