sexta-feira, setembro 02, 2016

Um Lugar chamado Covelos - Foz de Arouce - Parte II

Quando o ônibus parou na entrada de Covelos, o dia estava muito nublado e a névoa ainda não tinha se dissipado. A estrada onde eu estava era deserta. Do lado oposto à parada de ônibus havia algumas casas e um prédio de apartamentos, mas as janelas e portas estavam fechadas. 
Atravessei a rua sem acreditar direito que estava ali, diante da vila de Covelos de onde vinha um dos meus trisavós maternos e parte de seus ancestrais. 
A vila de Covelos era um lugar totalmente desconhecido para mim até que eu iniciei minhas pesquisas genealógicas. Aliás, não somente ela, mas todos os outros lugares de onde o ramo português dos meus ancestrais saiu - exceto por Lisboa e Porto. Estar ali, portanto, era ver materializado diante de mim o nome ao qual me havia familiarizado pelos livros de batismo, casamento e óbitos da igreja católica, cujas páginas li e reli em busca de meu ancestral e seus ancestrais. 
Uma olhadela rápida e à distância me dizia que aquele lugar não mudou muito desde o dia 21 de
agosto de 1877 quando meu trisavô Domingos embarcou no vapor Minho em direção à Bahia. Apenas a fachada das casas e seus novos estilos traiam o passar dos anos. Contudo, nem todas elas haviam mudado. 
Nas paredes de pedra com suas portas e janelas faltantes ou pendentes, nas ruínas que davam ao lugar uma aura triste, melancólica, talvez chorosa por aqueles que há centenas de anos haviam indo embora, pude ter um vislumbre da vila na época da partida de meu trisavô. O lugar me deu um sentimento estranho de que eu estava em casa e ao mesmo tempo longe de casa. Especialmente porque, olhando de um lado a outro, não via ninguém, não ouvia ninguém, e nem as chaminés fumaçavam espantando o frio brando de inverno. 
Entre paradas para fotografias e anotações, um cachorrinho começou a me seguir, latindo, me levando até a gleba que sua dona arava. Cumprimentei a jovem senhora que repetia ali o que os ancestrais dela e os meus faziam há centenas de anos naquela mesma terra, e logo indaguei se ainda havia por lá uma família chamada Vaz Collaço. Num lugarejo como aquele provavelmente todas as pessoas se conheciam e a prática da boa vizinhança, que a gente vê nas pequenas cidades brasileiras, ali também deveria reinar. Ela logo me disse que sim e me apontou a casa da família que eu procurava.
O caminho de volta pela estrada parecia infindável. Titubeei um pouco, incerto se deveria ou não procurá-los. Afinal, o que eu iria dizer: "Olá, sou seu parente de quarto grau do Brasil, vim aqui lhe dar um abraço"? Os latidos do cãozinho que me seguia de volta pelo caminho ressoavam como as batidas incertas do meu coração. Eu realmente não sabia o que esperava ou o que queria dizer.
Parei diante do portão, esperei, ouvi meu fôlego, as palmas
batidas por minhas mãos, o silêncio que se seguiu. Quando já estava indo embora, uma senhora loira despontou na varanda me perguntando o que eu queria. Me apresentei, disse a que tinha vindo e perguntei se ela era da família Vaz Collaço. Ela confirmou, com a ressalva de que havia outra família de mesmo sobrenome na casa vizinha, mas que não tinham parentesco próximo - imagine que numa vila tão pequena, pessoas de mesmo sobrenome não têm parentesco próximo... tudo bem. Eu lhe disse que procurava por ancestrais de Maria Augusta, Domingos, Augusto, Maria Izabel e Abílio Vaz Collaço, todos filhos de José Vaz Collaço e
Maria Delfina de Jesus. Ela me disse que não conhecia essas pessoas e se despediu. Eu fiquei olhando pra cima, esperando alguma coisa que eu não sabia bem o que seria, uma sensação de pedra batendo no fundo do poço vazio ou de quando você, por horas e horas, faz um castelo bem bonito na areia da praia num dia lindo de sol e quando tudo está pronto, as pessoas tirando selfies no seu castelo, vem uma turma de crianças correndo e acaba com tudo e depois a onda chega e leva o resto - foi bem assim a sensação.
Baixei a cabeça, suspirei e fui descendo a ladeira, sem rumo certo, coração pesado, pensamentos perdidos, abandonado até pelo cachorrinho feio e chato que tinha me recebido com tanto barulho. Surpresa, porém: quando eu pensava que voltaria dali de mãos abanando, a mesma senhora veio correndo atrás de mim me dizer que
seu marido ouvira o que eu tinha dito e confirmara que a Maria Augusta Vaz Collaço era sua avó, mas que todo o resto da família morava agora na Guarda, e que eles não tinham mais nenhuma ligação entre si. Eu olhei pra ela, com aquele olhar do Gato de Botas do Shrek, pensando: me convide prum cafezinho, uma conversa com seu marido. Ela não entendeu. Mais uma vez me disse adeus e subiu seu caminho loiro de volta pra casa.

O consolo veio do cemitério de Foz de Arouce
Eu sabia, pelos assentos de óbito, que meus tataravós haviam sido sepultados no cemitério público de Foz de Arouce, por isso caminhei para lá . Quem sabe o silêncio dos mortos me diria mais do que a resposta dos vivos.
No caminho, fui pensando que se um dia alguém chegasse à porta da minha casa com informações sobre meus ancestrais, me mostrando documentos com datas de nascimento e óbito e sabendo tanto da história de minha família, eu iria pelo menos ter a dignidade de perguntar como ele se chamava. Mas, vá lá, nem todo mundo é curioso como eu, e aquela minha prima linda pelo menos teve compaixão de sair de sua casa ao meu encontro para me dizer que minhas pesquisas não tinham dado com os burros n'água. No mais, eu devo ser meio louco mesmo. Tão louco ao ponto de entrar no cemitério e sentir uma enorme emoção me tomar por dentro e por fora, lágrimas encherem os meus olhos, o coração acelerar e as pernas tremerem por ver diante de mim o jazigo do meu tataravô Antônio Dias Brandão. Aquele homem que foi um dos responsáveis pela minha existência, e cujos restos mortais estavam ali, tão perto de mim, numa terra que me era estrangeira e para a qual eu também era estrangeiro, mas à qual eu estava ligado irremediavelmente e para sempre em parte por causa dele. Ali dentro estava também minha tetravó e outros membros da família. Fiz uma prece, fotografei aquele jazigo tão singelamente bonito e caminhei em direção à vila de Foz de Arouce - sobre a qual já falei aqui: http://marciowaltermachado.blogspot.com.br/2016/03/europa-em-60-dias-coimbra-portugal-em.html. Depois era voltar a Coimbra e de lá ir a Aveiro continuar procurando o ramo português da minha família paterna - quem sabe os vivos de lá seriam mais receptivos.

P.S.: desculpem por escrever os nomes dos parentes em dada parte do post. Espero que com isso a narrativa não tenha sido quebrada. Fico na esperança que a curiosidade genealógica seja de família e que um dia, quem sabe, um descendente dessas pessoas venha parar aqui no blog ao buscar por seus ancestrais.

Gostaram? Então divulguem! 

8 comentários:

Maria Emília Seabra disse...

Vou partilhar seu Blog. Quem sabe algum familiar seu lê e se interessa. Vivo na Lousã, muito próximo de Foz de Arouce e Covelos.

Marcio Machado disse...

Agradeço-lhe imensamente, Maria Emília!
Estive na Lousã por um dia. Lugar agradabilíssimo!

Flor disse...

Vou partilhar também.
Interesso-me por genealogia e já me aconteceu o mesmo. Não desanime e continue a sua busca.
No meu caso, consegui chegar ao ano de 1695 descobrindo pessoas que nunca imaginei que fossem meus parentes.

Marcio Machado disse...

Agradeço imensamente, Flor! é assim, aos poucos e com a ajuda das pessoas que se identificam conosco, que conseguimos quebrar barreiras intransponíveis.
Muito obrigado!

Lousanense disse...

O meu amigo José Almeida colocou no grupo do FB "História, Cultura e Estórias da Lousã", o seguinte: Eu não sei se o Márcio consegue ler isto, nem se, se o ler, lhe servirá para alguma coisa, mas...aqui vai o que sobre a família Vaz Colaço, da freguesia de Foz de Arouce, consegui apurar num rebusco às minhas notas.
JOAQUIM VAZ COLAÇO - Informava o jornal "Comércio da Lousã" de 16/07/1909, que se tratava de um negociante em grande escala, que acabava de Falecer em Foz de Arouce, contando 93 anos.
AUGUSTO VAZ COLAÇO - Dizia o "Comércio da Lousã", de 23/11/1910, que tinha sido nomeado como o novo Regedor de Foz de Arouce.. No também jornal lousanense "Alma Nova", agora de 23/01/1923, apontava-se o mesmo como sendo proprietário e membro do recentemente criado Centro Republicano da Lousã. Finalmente, e em 07/12/1935, no "O Povo da Lousã" dava-se conta de ter falecido em 31/01/1935, tendo deixada viúva Maria da Assunção Pinho Colaço, professora primária na Lousã.
DOMINGOS VAZ COLAÇO - Escrevi ao "Comércio da Lousã" ser membro efectivo da Comissão Paroquial Republicana de Foz de Arouce.tórias da Lousã", o seguinte:

Marcio Machado disse...

Muito obrigado, Lousanense!
Também agradeço ao senhor José Almeida pela atenção e pelo pesquisa.
É por causa de pessoas como vocês que a gente nunca esmorece diante das adversidades.
Muitíssimo agradecido!

Carina Ferreira disse...

Também estou na busca genealógica. Sou descendente da linda Lousã, terra de meus avós. Procuro informações de ancestrais e de descendentes. A busca é difícil, mas não devemos desanimar. Boa sorte para nós!!!

Marcio Machado disse...

É isso mesmo, Carina! Seguir sempre adiante que mais cedo ou mais tarde as recompensas chegarão.
Grande abraço e muito sucesso!

Tervetuloa Turkuun! Turku, a cidade da margarida gigante.

“Perplexidade” – essa é a palavra que toma conta de nós quando ouvimos falar de ataques terroristas. Pois, é difícil entender, por exem...