quarta-feira, março 29, 2017

Estocolmo - Suécia - o charme escandinavo


O metrô me deixou praticamente à porta do hostel, o que foi excelente porque as ruas estavam cobertas de neve e gelo derretidos e o frio estava muito intenso. O lugar onde me hospedei não era exatamente como eu esperava pelas fotos do booking.com. De maneira que aquela sensação de "oh, rapaz, o que é que eu vim fazer aqui?" foi justamente a que tive quando comecei a descer as escadas úmidas na direção da recepção - o hostel fica abaixo do nível da rua e parece ter sido reaproveitado do antigo porão daquele edifício.

Parei de frente ao balcão, olhei pra um lado e outro me perguntando onde havia me metido até que a recepcionista chegou com um sorriso enorme estampado no rosto para me dar as instruções de conduta e me passar os códigos para abrir as portas da rua e do quarto com a recomendação ameaçadora: "não esqueça esses números, pois a recepção não funciona à noite e está muito frio lá fora" - e o olhar que dizia "você não vai querer ficar ao relento, não é?!". Me entregou os lençóis e voltou a desaparecer pelos corredores daquele "hostel Califórnia". Fiquei lá parado, sensação de "ai, Jesus!" e o pensamento de se em breve eu seria um dos "pretty, pretty boys that she calls her friends" que podia "fazer o check out a qualquer hora, mas que jamais poderia ir embora", conforme diz a música do Eagles. 
Peguei minha malinha e me mandei até o quarto lembrando de minha experiência em Roma no ano anterior (http://marciowaltermachado.blogspot.com.br/2015/12/europa-em-60-dias-roma-italia.html) e rezando para que a história não se repetisse. Digitei meu código, a porta se abriu. Vi o beliche, a cama e o armário onde não cabia nem o dedo mindinho. Não havia janelas, não havia ventilação, só havia um rapaz que acordou assustado, falando numa língua que eu não entendia mas que me lembrava algo semita. Respondi a ele em inglês que eu era brasileiro e não falava sueco. Ele me disse: "Não é sueco, é árabe. Eu pensei que você fosse da Argélia ou do Marrocos". Aquela era nova! Já me haviam chamado de mexicano, búlgaro, espanhol, estadunidense, português, mas nunca argelino ou marroquino. Olhei minhas mãos, as quais, tal qual meu rosto, vinham sendo queimados pelo gelo e pelo vento desde a Polônia, me deixando com a pele bronzeada como se eu tivesse ido à praia por vários dias. 
Se por um lado a confusão étnica foi divertida; por outro, me deixou preocupado. Pois instantaneamente me lembrei das manifestações neo-nazistas em marcha pelas ruas de Borlänge em maio de 2016 https://www.theguardian.com/world/2016/may/04/woman-defied-neo-nazis-sweden-tess-asplund-viral-photograph), e pensei que talvez a minha morenice dourada pudesse alimentar ódios numa Europa cada vez mais anti-islâmica - graças a Deus foi só um receio. Os suecos que conheci foram todos muito queridos comigo. 

Estocolmo - a capital arquipélago

A cidade de Estocolmo se situa num arquipélago composto por 14 ilhas unidas por várias pontes, o que em si mesmas já forma uma atração turística. Há, inclusive, passeios de barcos pelos canais, o que é uma ótima pedida para ver a cidade. Mas, se você prefere andar, vai ver o quão impressionante é caminhar pelas ruas e se ver cercado de mar e pontes por todos os lados. No inverno, então, isso se torna uma atração incrível para os turistas dos trópicos que podem ver o mar como uma camada infinita de gelo se espraiando do cais ao horizonte. 
Nos dias em que estive lá, para minha sorte, o mar estava congelado. Parei algumas vezes ao cais para observar a balsa quebrando o gelo e ouvir o barulho que isso faz - uma experiência maravilhosa, mesmo com a neve caindo e o frio soprando cruel. 
Como meu hostel ficava bem no centro da cidade, de lá pude ir andando para todas os locais que havia planejado (no final do post, escrevo uma lista do que fazer), então, embora o sistema de transporte público seja um dos melhores do mundo, eu não o experimentei a não ser para ir do aeroporto ao centro e vice-versa. O que experimentei a valer foi a observação da arquitetura medieval das casas e prédios totalmente bem conservados de Gamla Stan (Cidade Antiga) e das outras partes da capital sueca aonde fui. 
Pelo caminho, pude perceber como as ruas são extremamente limpas e seguras, o povo muito cortês e atenciosas, os monumentos bem conservados e um charme único que parecia exalar por todas as partes. Estocolmo, também chamada de "A Veneza do Norte" devido aos seus muitos canais, não mentiu a todas as recomendações que recebi. 


Quem diria...
No meu último dia na cidade, resolvi deixar a economia de lado (é muito mais barato - especialmente na Escandinávia! - comprar comida no supermercado que ir a restaurantes ou fast-foods). No entanto, eu resolvi "tirar o escorpião do bolso" e gastar minhas coroas suecas (SEK) num bom prato típico.

Após passear mais uma vez pelo centro histórico - vale muito a pena ir e voltar à Gamla Stand, a cada vez, vemos coisas diferentes e pitorescas -, a fome apertou e eu comecei a deixar de olhar os topos dos prédios e relógios antigos para me concentrar nos menus postados às portas dos restaurantes. Encontrei um muito charmoso chamado Pickwick Pub & Restaurant. Entrei por aquela porta pesada, de madeira fosca, e logo fui conduzido pela garçonete a uma mesa bem aconchegante. Pedi um prato de almôndegas suecas com puré de batatas. Quando o prato chegou, o cheiro se impregnando em minhas narinas famintas, levei a primeira garfada à boca para me apaixonar pela comida. O sabor do molho me lembrou muito o queijo doce que havia comido na Noruega. Então, perguntei o que fazia daquele prato "almôndegas suecas" em vez de "almôndegas brasileiras". A menina, sempre muito atenciosa, me perguntou se eu vinha do Brasil. Quando lhe respondi que sim, ela me pediu um minuto e voltou com uma outra atendente que logo me perguntou em português: "Então você é brasileiro! O que faz aqui nesse frio da Suécia?" quase sem sotaque. Diante da minha cara de espanto e alegria por ouvir minha língua sendo falada lá no topo do mundo, com algumas palavras sendo pronunciadas com uma leve entonação nordestina, a Diana riu e me contou sua história pelo Brasil, país onde havia morado por alguns anos e onde tinha estabelecido uma pousada - se não me engano, no Ceará - e do qual ela tinha sentimentos variantes entre saudade, dó, amor e decepção.


Dentre tudo o que conversamos, me chamou muito a atenção uma pergunta que a Diana me fez: "É uma pena o que fazem com a educação de vocês. Por exemplo, o ensino de inglês nas escolas públicas. Aqui todo mundo fala inglês, fluente, que a gente aprende na escola... mas no Brasil, me dá pena dos meninos lá... pra onde vai o dinheiro de vocês? É muita corrupção, né?". Pra onde vai? Tristeza ver que o mundo se pergunta e a gente não consegue fazer nada pra mudar a resposta. 

Hora de dizer tchau
Passei apenas dois dias em Estocolmo, tempo suficiente para ver tudo o que tinha planejado e ainda conhecer gente bacana tanto no hostel quanto fora dele. Há coisas interessantíssimas para fazer e ver e comer por lá e eu recomendo a viagem por todos os motivos. Quero voltar a Estocolmo um dia e poder dar a Diana a resposta que ficou calada entre minhas cordas vocais e meus lábios - só não sei se conseguirei, pois continuamos a eleger, ano após anos, os mesmos políticos corruptos e sua prole - e me hospedar num hostel-navio que encontrei em minhas andanças (imagine a sensação de ficar hospedado num navio no meio do mar congelado!) fazer coisas em outras cidades bacanas, como Malmo, Uppsala, Helsingborg. Quem sabe um dia!
Afinal, a terra da rainha Sofia, a rainha de sangue brasileiro, encanta os olhos e os sentimentos e, mesmo no frio inverno cinza, nos beija a alma docemente. 



O que ver/fazer em Estocolmo em dois dias:

Kungsholms Kyrka, Stockholm City Hall, Stortorget, Museu Nobel, Gamla Stan (Cidade Velha), Palácio de Estocolmo (kungliga), Parlamento da Suécia, Museu Medieval, Arvsfustens palats. e, claro, andar muito e observar os prédios, as estátuas espalhadas pelas ruas, os pequenos monumentos e o cais. 

Gostou? Então que tal comentar, compartilhar e divulgar?!





2 comentários:

Luiza F. Almeida disse...

Vontade de ir lá! <3

Anônimo disse...

Sensacional! Parabéns.